sexta-feira, 3 de julho de 2009

Quando tudo se vai tornando familiar...





(IPO 2006)




Em gestos quase mecânicos, encaminho-me para o hospital.Um caminho igual todos os dias, com rostos que se repetem, com lugares e imagens sempre iguais.É, quando se cai numa rotina como esta, reparamos em coisas, que nunca antes fariam sentido para nós.Ás vezes, quando estou a caminhar por aqueles corredores, penso, na forma como o faço, com a mesma segurança, de saber onde estou e porque estou ali.Umas vezes, levo sem dúvida o semblante mais carregado, outras mais leve.Eu não me dou conta, mas há quem me veja por ali.Hoje a senhora das senhas, disse-me antes que eu abrisse a boca:"Já sei, piso 5, cama 12..." e eu esbocei um sorriso acenando que sim.Depois entro sempre no bar, para comprar uma garrafa de água fresca ou qualquer outra coisa, e só hoje reparei que senhor me cumprimentou como se eu fosse cliente habitual:"Olá, o que vai ser hoje?"

Ás vezes sinto que aquelas paredes, me conhecem.E eu não queria que fosse assim.

Mais á frente no corredor antes de chegar ao elevador, estava um senhor de andarilho, encostado a uma janela, a fumar o seu cigarro, olhando para as pessoas que passavam com sacos, a caminho da visita com os seus doentes.Ele estava ali sozinho, com um olhar abandonado...querendo distrair-se por certo.Disse-lhe boa tarde e sorri.Ele respondeu e senti a sua admiração, pois ali onde passa tanta gente as pessoas se limitam a olhar para ele, em pijama e debilitado.Olham,mas esquecem-se que um dia poderão ser elas ali, junto á janela.Eu sei o que é estar fechado num hospital e sei que qualquer brilho nos move...qualquer sorriso faz a diferença.

A visita de hoje, foi no entanto diferente.

Achei o meu pai muito agitado.Pedia-me para por a cama para cima, no comando electrónico, mas depois irritava-se porque afinal não era tanto assim.Depois quando punha para baixo, queria mais para cima.E quando pegava no comando, carregava nos botões errados, fazendo mover a cama em todas as direcções, menos naquela que queria.Quando veio o jantar, pediu para por o sal na sopa, como todos os dias.Coloquei e mexi, quando a provou disse que estava salgada.Depois penicou os hamburguers, que pareciam pastilha elástica e mal comeu o puré.Enquanto fazia isto, ia reclamando com a comida do hospital, que "os doentes não são cães.São pessoas"Quando retirei da mala fruta cozida, acalmou.

Acabou de comer e não quis lavar os dentes, como normal.Não insisti.Estive sempre pacientemente a ver qual a melhor forma de o agradar, fazer sentir-se melhor.Mas por várias vezes, estive para desabar e chorar ali mesmo.Dei uma voltinha ao corredor, respirei fundo...e voltei.Sentei-me mais 10 min, ao lado dele, vi as noticias a começar e depois vim para casa.

Eu sei, sei muito bem, que custa muito estar há quase 2 meses, preso a uma cama, dependente e sentir que a vida se vai, que já não se tem o controle sobre si mesmo...eu sei.Este estado de irritação é até um direito que lhe assiste, dadas as circunstâncias.

Mas mesmo assim, custa-me horrores, quando se zanga comigo, por coisas tão pequenas.

Regressei a casa, completamente alheada, da realidade,com vontade de voltar atrás e abraçar-me a ele.
Para sempre.


2 comentários:

Zélia disse...

Minha menina muita força e coragem....

Parabéns por tudo que o que tens feito e peço a DEUS que te dê ainda mais força e ao teu pai tb...


Um abraçooooooooo mtttttttt apertado desta menina que te adora tanto..........

Ana Cardoso disse...

Tenho acompanhado o teu email, e acho que sem dúvida és uma grande mulher.
Força, continua a ter a força que sempre demonstras-te.
Beijinhos