Quinta-feira, 15 de Março de 2012

A Rita...nasceu.

 

 

 



Apresento-vos a Rita.
Nasceu ontem, depois de 7 meses sossegadinha.Depois de um parto muito complicado...em que esteve básicamente, 2h30 entalada, onde a mãe sofria, e ninguém á sua volta, via uma solução.Não a queriam transportar ao hospital, mas também não queriam cortar o cordão.Lá andou a tia Kate, a tentar colocar bom senso nas cabeças...e a correr desesperada por um enfermeiro que a ajudasse.Claro que numa cidade com 160 mil habitantes, ninguém vai a casa...para um parto.
Aqui as mulheres têm os filhos, sozinhas, cortam o cordão sozinhas se for preciso, são parteiras delas mesmas.Isto pode chocar, mas é mesmo assim.
Aqui ficam de lado os requintes e cuidados de higiene, elas aguentam tudo, são mulheres de fibra...de uma resistência á dor incrível.Daí a calma aparente, ou mesmo real,de todos quanto as rodeiam nestes momentos.
A Rita, esteve em sofrimento...mas nasceu, resistiu e está bem.Isso importa.
Quanto ao nome, é de facto mais do que coincidência.
Um destes dias entrei na cozinha,onde trabalha a titia Aciato e por brincadeira agarrei-me á sua barriga , dando-lhe um beijo na barriga e falando com o bebé por graça... e perguntei quando nascia?Se era menino ou menina?Qual o nome?
Percebi que ainda não era o tempo, aqui perdem a conta aos meses...e na maioria das vezes, não sabem o sexo antes.E de certa forma este factor surpresa, agrada-me e acho bem mais interessante.
Mas disse-me que se fosse menina, seria uma Rita e que seria alegre como eu.Fiquei feliz.
Que privilégio...que honra, poder ficar de certa forma por aqui, mesmo depois de partir.
Sei que em Moçambique os nomes, têm sempre um significado, ou não fosse esta uma sociedade maioritariamente muçulmana.O nome de Rita não terá um significado, concreto, mas se isso implicar, ser como eu, apenas desejo que não tenha mau feito...o resto pode ter tudo.
Quero seguir esta vida...quero saber dela, sempre.Mesmo na distância.Gostava muito que esta Rita fosse um agente de mudança no mundo, neste mundo onde vai crescer e provavelmente viver.
Sabe Deus as voltas que uma vida pode dar...e onde chegar.Olho para  a minha própria vida e penso que não há nada que não quisesse que não tivesse alcançado.E a vida ainda me deu mais.E a isso eu chamo determinação.Ainda que atribulada...muitas vezes, sabendo tão bem onde quero chegar.
Será muito feliz esta Ritinha.E no que puder ajudar...estarei mesmo na distância.
Bem vinda Rita, a esta aventura que é o mundo...


E com ela também eu renasci um pouco...de tantas cinzas que têm caído...por aqui.


Quarta-feira, 14 de Março de 2012

E depois da chuva...




É tempo de quebrar este "afastamento" do blog.
A verdade é que mais do que em qualquer outra parte do mundo, aqui, escrevo menos.Tento explicar o porquê, mas não há grandes motivos...
É como se, até o tempo para escrever fosse  retirado a esta maravilha que é África, que é observar, sentir, falar, lutar por...seja o que for.Partilhar.Quando me sento na secretária e abro a janela, vejo as copas das árvores, os corvos da Índia a pular nos telhados, o céu azul, ou mesmo a chuva a cair...
Mas quando escrevo, é convictamente porque preciso de o fazer.Não chegasse eu tantas noites á cama, desejosa de dormir, não fossem as 2h de diferença que me separam de Portugal e me fazem esperar que apareçam aqueles que são a minha força na distância e por momentos nos cruzemos, no tempo e no espaço.É de muitos desses momentos, que vou retirando uma parte do meu sorriso...energia, confiança.
Saber que há todo um mundo, que me conhece, como sou, sem tirar nem pôr, que me ama assim mesmo, que não me julga...e vai sempre esperar por mim.Para sorrir, viver, sonhar...acreditar.
Está feito um mês, desde que cheguei novamente.
E um mês, pode ser tão...decisivo, na nossa visão das coisas.
Um mês é talvez pouco tempo para sentir, para perceber o local, as pessoas, a realidade...mas entendo que seja tempo mais que suficiente para olhar para quem vive connosco, diariamente, para olhar para o nosso trabalho e desempenho em determinado projecto.
Pois lamento, que algumas pessoas, não tenham essa visão, essa perspicácia, de sentir que aqui não é o seu lugar, que não vieram em nada contribuir para melhorar a vida dos locais e desta terra.
Quando não há colaboração, partilha, quando cada um quer ser por si e apenas por si.Não resulta.
Como pode alguém vir para um projecto destes e não sorrir?Como pode não abraçar uma criança, ficar com os olhos brilhantes, vibrar, apaixonar-se pelas pequenas coisas?Como não nos entregarmos por inteiro a estas pessoas?...e principalmente aquelas que vivem na mesma casa do que nós?
Ninguém aguenta uma refeição em silêncio, nem uma cara fechada...ninguém aguenta falta de amor.
Uma porta fechada.
Enquanto tiver voz, não me calo a este tipo de situações.Porque servir, é muito mais do que colocar um pé neste solo e andar para trás e para a frente, vendo quem passa.Ou há trabalho bem feito e rigoroso, ou não estamos aqui a fazer nada.Porque aqui merecem tudo, merecem mais, sempre.
Onde não há partilha, nunca haverá entendimento.
A vida continua depois das tempestades, há que recuperar cada pedaço, reconstruir, mas as marcas, essas, nunca se esquecem.E das duas uma, ou aprendemos com elas, ou sofremos a vida inteira, porque não fomos capazes de lutar, enfrentar, ousar.
Há 3 vidas nesta casa que se cruzaram e se aceitaram, que fazem as coisas acontecer.Há uma vida, que se foi desta casa, que não percebeu o objectivo a atingir.
E eu arrisco a dizer, só faz falta quem cá está...quem suja as mãos, quem sente o coração bater por cada história de vida, pelo que vê e toca.
Não há outra forma de viver, Moçambique.

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Terça-feira, 6 de Março de 2012

São os rostos...que me marcam.São os dias que me constroem.

























São tantos os rostos que me marcam.São tantos os olhares que vou captando e retendo.
É isso que me marca.É isso que não esqueço.É isso que me intriga, que me seduz neste povo...Há traços vincados, há expressões tão únicas e claras, que podemos vislumbrar o que querem dizer.
Aqui leio perfeitamente os rostos, os olhos, os sorrisos.Habituei-me então, por onde andei neste mundo, a fazê-lo.A ler os sinais.A compreender os detalhes, que já não me podem passar despercebidos.
Atrevo-me a dizer, que há imagens perfeitas de tão imperfeitas...há imagens límpidas de tão sujas.
Há beleza, onde parece haver vazio.
Há uma essência muito bonita, que caracteriza este povo, estas terras, esta forma de viver.No seu jeito ainda rudimentar, brindam-nos com as mais castiças formas de ser e estar.Não há igual.Não há comparação.É uma cultura tão forte...tão definida, tão profunda.E pergunto-me que cultura não o será?
Esta cultura, este povo, estas pessoas, estas vida, que me tocam...ficam.Criam raízes em nós.
Detenho-me a observar, mesmo no meu jeito vivo e constantemente dou comigo a fazer isso mesmo, a contemplar.
Contemplo,desde o momento em que saio de casa, percorro o mesmo percurso, que apesar disso nunca é igual...porque os rostos mudam, as cores mudam...o tom do dia muda.
A rotina existe, mas não cansa, não mói.Aqui respira-se liberdade.E quando o cansaço é físico, há qualquer outra coisa...que nos anima.Porque estamos juntos e isso basta.
O dia corre e eu vejo-os brincar, livres, felizes, com aquilo que há...inventando novas formas de sonhar.
E até ao momento em que me deito, ouvindo os grilos lá fora...sentindo a noite,lembrando-me do que foi o meu dia, eu contemplo.Tomo consciência do que me fui tornando por causa deles...e no que eles se podem tornar por minha causa.Nessa diferença que ambos fazemos na vida uns dos outros.
Para mim, os melhores professores, foram estes meninos guerreiros, corajosos, feitos para suportar o que metade do mundo, não imagina ser possível.
E eles são...a parte mais bonita, destes olhos da alma.
Porque apesar de tudo, sorriem...e é isso que eu nunca vou deixar de fazer.

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Um pouco de chuva...












É Verão.
Apesar disso, chove.Chove muito.E quando chove é sempre com uma força impressionante, por alguns instantes.Aqui o tempo seco é frio.Desejava agora esta chuva para o meu País.
A chuva traz vida, por aqui.Traz verde...e frescura.Também lama, que suja tudo.
Eu, gosto de ouvir a chuva.Nunca vou saber explicar, que feitiço tem, que me detenho a olhar para ela.
Relembra-me pessoas, países, conversas.Sentimentos. 
Hoje, desafiei os meus meninos a ouvir a chuva, a deitar a cabeça na mesa e a deixarem que aquela música nos acalmasse.O resultado foi tão bom...que cinco deles adormeceram.Pareciam anjos cor de chocolate.Detive-me então não só a ouvir a chuva, mas a olhar para eles...delicioso.
Cada traço, cada expressão...cada história, vai chegando até mim, entrando em mim.
Ficarão para sempre.Penso no dia em que esta chuva, forte e morna não fará parte dos meus dias.
Tenho tanta sorte, poder tocar estas vidas...enquanto elas fazem da minha, um desafio tão doce de vencer.Mesmo com dias mais duros, assim que os vejo ao longe, sei que aqueles sorrisos, não falham.
E sua liberdade, vai sendo a minha também.
Assim como a chuva que cai e nos une, sobre esta terra vermelha .


Domingo, 4 de Março de 2012

E já somos 4!







A casa está finalmente cheia.Os rostos são novos...a energia, bem como a dinâmica, mudou.
Gosto de casas cheias.Gosto de gente á minha volta, com quem partilhar, seja o que for.Uma refeição, uma conversa, uma risada, uma desilusão...uma opinião.
Chegaram cheias de vida, cheias de energia...e fazem-me acreditar, que este ano, no nosso projecto se vai continuar a lutar, por um ensino melhor e de qualidade para todos os meninos, que tiveram a sorte de entrar nesta escola.
Cada pessoa encerra em si, mundos.Alguns deles enormes, cheios de tesouros por descobrir.
E é exactamente esse desafio que me atrai.Cada dia, um bocadinho fica a descoberto...outros tesouros, nunca se chegarão a conhecer.Mas esta experiência é única e tem sido vivida, como se cada dia fosse já o último.Alegria não falta.Gosto desta energia que os 20 anos trazem, sinto que não a perdi e que ainda me sinto assim por dentro, tanto, tanto.
O coração, apenas ele nos pode levar a dentro de cada um...o quanto quisermos e o quanto nos deixaram.É uma aventura interessante de vencer.
Tantas vidas já se cruzaram com a minha.E das quais guardo o melhor.
Entro nessa aventura agora, mais uma vez, todos os dias.E isto é viver.
Porque tudo o que nos restará um dia, de uma vida, serão os afectos...o que sentimos e fizemos sentir.
Nada mais.Estou certa disso.Cada vez mais.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Vem mar...




Vem Mar...inunda os nossos corpos...
Preenche a nossa mente em vagas de amor
Suspira o teu som pela primeira hora da noite
De onda em onda sinto o teu fulgor...

Suspira o teu som para sempre...
Como tela onde tudo se desenha
Onde tudo está...onde estás tu...
Mas suspira o teu som para sempre...

Acordo e continuas lá...
Vejo-te a olhar o infinito salgado...
Enquanto a próxima onda se desfaz...
Suspira o vento e continuas lá...

Como te invejo ó Mar...
tu que és omnipresente e arrebatador...
Não queria perder por um instante
O olhar... O horizonte desse amor!

Não Mar, não penses que separas...
Que afastas...que findas numa praia qualquer 
Tu unes... Tu fazes amar... tu enfeitiças
Mas só quero ouvir o suspirar...

Aparece a manhã...o teu azul...
Vejo o teu vulto na janela...
Sinto a despedida... um beijo, uma onda...
o cheiro da maré vazia...

Quero o teu olhar...
Como a gota mais importante do oceano...

Mais uma onda... Mais um rebentar na falésia ...
Mais um suspiro que o Mar envia de ti...


Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Carnaval...

O reencontro, Lichinga
























O tão esperado momento do reencontro, aconteceu por fim, no dia 14 de Fevereiro.Um céu ao amanhecer lindo...visto do avião, que me deixou elevar os pensamentos.
Que melhor dia, este, em que muitos clamam o Amor, sem saber muitas vezes o seu verdadeiro significado.
Aterrei numa Lichinga, completamente verde e mais fresca, do que aquela que tinha deixado.Aterrei com uma mala cheia de sonhos e projectos a aplicar.
O cheiro, era o mesmo.Nunca se esquece.
Á nossa espera a inconfundível Ir.Ferreira.Depressa me vi no caminho para casa.Depressa aquela paisagem me encheu a vista.
O ponto alto, a paragem na escolinha.
Quando entramos no bairro, o meu coração começou a bater a 1000, só de pensar nos rostos que deixei há 3 meses atrás.E no quanto eles significam para mim!No quanto me mudaram e enriqueceram.
Assim que o carro parou, e eles me viram, começaram a correr e eu saí do carro, mal conseguia pôr o pé dentro da escola, e depois, foi um momento de alegria, ouvir gritar o meu nome:"Tia Rita!!Tia Rita!!", pulamos, abraçamos, sorrimos, nem sabia bem para onde me virar, o sorriso falava por mim.
Esperei tanto aquele momento.E de repente estava ali.E eles também.As lágrimas da despedida, deram lugar a sorrisos de chegada.
Como se esquecem estas pessoas?Como se vive longe desta realidade para sempre?
Nunca.Não há forma de o fazer.Deixam uma marca tão forte e tão bonita, pelo que nos ensinam.
Só pensamos em voltar, em abraçar estas vidas, confortá-las, torná-las melhor.Olham-nos nos olhos, fixam-nos.E sei que não poderei ficar para sempre.Sei que é um tempo exclusivo da minha vida.
A escola cresceu, encontrei mais estruturas, mais alunos, (cerca de 400 no total).
A nossa escola é boa, é considerada uma escola piloto, por estas bandas, claro que há muitas falhas, técnicas e humanas, mas comparado com a maioria das escolas, esta escolinha ainda tem, cor, condições mínimas e aceitáveis.Há ainda dignidade, tentam passar-se regras básicas, de higiene, comportamento, relação com o outro.
Depois cheguei a casa e foi entrar num espaço cheio de memórias.As saudades da Benedita que partilhou comigo 5 meses de projecto.
O dia, foi para arrumar tralha e mais tralha no devido lugar, como se me tivesse mudado para aqui...e o sentimento era esse, o de chegar a casa.Chegar ao que é simples, ao que sempre se desejou, como projecto de vida.
Adormeci por fim ao começo da tarde, com aquele sentimento de paz, apesar de cansada, estava pronta para entrar num longo e regenerador sono.
Depois acordar,para 10 meses de serviço, pronta para sujar as mãos com o que for preciso!
Pronta para o que vier.
De coração aberto, porque não há outra forma de Amar.

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

A chegada a Maputo!

























Pisei novamente solo Moçambicano, no dia 12 de Fevereiro.Depois de 10h30 de voo, onde a turbulência foi constante, abanando o avião quase toda a viagem, devido a massas de ar quente, chegámos por fim, sãs e salvas ao aeroporto de Maputo.
Á nossa espera, estavam filas infindáveis para ver o visto e para levantar as malas.E ainda, uns policias que embirraram com as nossas malas e tiveram que as abrir.
Depois foi o abraço da Zézé e do Manecas, que nos levaram logo ao famoso Piri piri, para comer um frango assado com bastante picante e um cerveja fresquinha.Sim o calor fazia-se sentir, para quem deixou Portugal, com temperaturas negativas pela manhã.
Tudo o que via, pela janela do carro, era familiar.O cheiro principalmente.Todo o ambiente mais descontraído.
Depois fomos descansar e dormir até á manhã seguinte.
O acolhimento foi fantástico, era como estar em casa.Há pessoas que conseguem mesmo fazer-nos sentir que pertencemos ali.
Este casal já viveu em Lichinga e fez parte do nosso projecto há dois anos atrás.
O seu espírito jovem, é contagiante.Até para a piscina nos levaram, depois de um dia de trabalho.
Não param.Trabalham muito, mas não dispensam tudo o que a vida nos oferece de melhor.E são eternos namorados...o que é muito bonito e raro de encontrar nos nossos dias.
Acho mesmo que nunca tinha visto Maputo, com estes olhos, fiquei a conhecer a cidade razoavelmente bem.E pude captar muito mais essa essência que pertence a cada lugar.É uma cidade super lotada, longe do passado que lhe pertenceu, mas toda aquela desorganização, lhe confere um certa piada.
Foi muito bom, depois de tantas horas de voo, poder descontrair.Há muita coisa que vem na nossa cabeça, em parte o que deixámos para trás, e por outro lado, o que nos espera.Os laços que temos em ambos os lados, em ambos os mundos, igualmente importantes.
E a vontade louca de chegar e abraçar os meninos de chocolate.Esse era o momento que mais ansiava. 
A viagem não estava ainda completa, pois faltava o percurso de sul para norte.Mais 3h30 até encontrar o rosto da irmã Ferreira.Ela que sempre nos acolhe.
Maputo, até breve...fica o Indico como fundo.