domingo, 6 de dezembro de 2009

Tarde de Ontem








Quando entro no átrio do Hospital, reparo na árvore gigante que está no centro.Aquece o espaço.
Dirijo-me para o balcão e recebo a senha, e começo a caminhada pelos corredores, até chegar ao piso, onde está o meu pai.Aquele caminho, dá tempo para nos prepararmos de certa forma.

Respiro fundo e peço força.Á medida que me aproximo do quarto, o último do corredor, abrando o passo.Visto as 1001 coisas que me mandam, e fico verde dos pés á cabeça.Não o posso abraçar, beijar ou tocar, e não sei como vou gerir aquilo.Ele apenas me vê os olhos mas o sorriso não.É nestas alturas que tenho a certeza que os olhos falam e muito.
Abro a porta e encontro-o sentado no cadeirão, com um ar abatido e cansado.Quando me vê, fica com os olhos mais abertos.Só me sinto tentada a abraçá-lo.Mas não posso e isto é para o seu bem, mas de uma crueldade...
O quarto é verde escuro, de azuleijos e apenas com a sua cama.Não tem mais nada.

Sento-me na cadeira á sua frente.E ali devo ter ficado 2h, seguidas a conversar.Fez-me perguntas, riu-se com as minhas histórias, mas o ar grave e sério, causado pela dor e desconforto...não o podia disfarçar.
Das coisas que levei, apenas comeu algumas uvas.A vista da janela, para a minha cidade, levava-me para longe, por vezes, os carros movimentavam-se lá fora e a vida segue apesar de tudo.Quem passa na estrada, não sabe e nem conhece as histórias que ali dentro estão...mas quando eu passo nessa mesma estrada, sei que ali está a pessoa que mais Amo.Sei a janela exacta.

Entretanto adormeceu.A medicação provoca isso.Aproveitei, desliguei a luz e desci ao bar para jantar.De caminho entrei na capela, vazia e á minha espera.Ali tive uma grande conversa com Deus.Devo ter estado 30 minutos ausente deste mundo...
Depois comi uma canja, um salgado e bebi um sumo.Subi novamente, fardei-me outravez e o jantar tinha chegado para ele.Mal comeu a sopa.Não quis o prato.Assim vai enfraquecer, mas a sua barriga está cada vez mais inchada e dura.O som que provoca quanso bate ao de leve nela, é oco.Fá-lo para me mostrar que está assim e depois lamenta.Como eu lamento, como lamentam alguns dos que o Amam.
Em conversa, diz-me que a minha irmã, vai passar o Natal com o Namorado e a família dele.Nesse instante, senti na sua voz, mágoa.
Afinal, qual a pessoa, que tendo o seu pai em fase terminal, deixa a família, ainda para mais no natal?
A minha irmã.
Mas isto não me surpreende.Quando não consegue lidar com uma situação, foge dela, em vez de a enfrentar.
Só espero que esta dor, não se junte a todas as outras que o meu pai já tem de suportar.
Por ali fiquei mais algumas horas.A noite já tinha caído lá fora, fazia tempo e ainda demos umas boas gargalhadas, relembrámos alguns episódios da minha infância...e ainda houve tempo para o ver de lágrimas nos olhos.Conrive as minha e não sei porquê?Mas fi-lo.
A despedida foi, a mais fria que já alguma vez tive.Fiquei de pé, junto á cama e pus-lhe a mão no joelho, apertando-o.Vontade de o abraçar.Depois caminhei para a porta devagar e hesitei em sair.Fiquei ali a olhar para ele e a dizer baboseiras.Apenas para me demorar mais tempo, com a sua visão nos meus olhos e na alma.

Saí, rasguei as batas e máscaras, desinfectei as mãos e comecei a caminhar para a saída.
Ali o deixei.E o que mais me custa, sozinho e isolado.

Nessa noite, ainda, estive com a Inês.Andamos á procura de um telemóvel, para o meu pai e um rádio a pilhas, para se distrair mais um pouco naquele quarto.Eu também me distraí.

Obrigado Inês, pela companhia, pela paz que sempre me dás.Desde sempre.
E assim, terminou o meu Sábado.Dia feito de diferentes emoções...lugares e realidades.
Quando chego á cama, fico sempre  a gerir tudo.Tomo decisões e acordo mais leve e pronta para mais um dia, de VIDA.

Ontem tomei mais algumas.E não vou voltar atrás.
Passado é passado.






4 comentários:

Anónimo disse...

Querida Rita,

Continuo a rezar por vós!

Um abraço apertado*

Lucia

Anónimo disse...

Não te conheço pessoalmente...mas gosto muiiiito do teu ser...fica com Deus, rezo por vós...


Magui

mila disse...

Admiro-te muito!E tornas-te sem duvida uma mediação para nós através da partilha das tuas experiencias.
Obrigada por seres como és, e FORÇA!!! :)

Márcia disse...

As tuas palavras, Rita...
São inscriveis, apesar de transmitiram uma dura e cruel realidade mas...
ao mesmo tempo,
transmitem força e muita coragem!

A forma cmo descreves tdo,
como pormenorizas cada detalhe,
permitem-nos, seguir-te,
como se cada palavra fosse um rasto..

E da uma vontade tão fort d t
ABRAÇAR!...

Oh, Amiga..
Queria mto q tdo fosse diferente!

És uma corajosa*