Timor, espero por ti...
...e sei que tu já esperas por mim!
Aprender foi, o verbo que mais conjuguei dentro de mim,durante estas férias...
Olhando para trás, tanto que vivi e recebi.
Foram férias de entrega, também com algum descanso pelo meio.Sinto que não parei, fisicamente, mas o fiz imensas vezes interiormente, o que me ajudou a decidir tantas coisas.
Só posso estar grata...por todas as pessoas que entraram na minha vida de uma forma tão bonita, pelos abanões que levei e me acordaram...pelo que os olhos levaram ao coração e lá depositaram, com cuidado.
Já não será segredo para ninguém, que mais dia menos dia, o meu desejo é partir em missão.
É um desejo antigo, que me vi forçada a calar, por momentos menos bons, que já lá vão.Fazem parte de um passado, que me fez...e me envia, com mais amor e mais resistência á dor e ao sofrimento.No entanto nunca vimos tudo...e o que ainda há para ver...Entregaram-me nas mãos, Timor.
E eu sem hesitar, disse SIM.
Podiam ter-me chamado, para qualquer canto do mundo, eu iria.Sei das minhas limitações, mas sei também que as maiores limitações do homem, estão na cabeça e na sua forma de pensar.
Esta alegria que me caracteriza, que me ajudou a lutar contra a morte, é tempo de a canalizar para quem mais precisa...
Estou decidida a deixar o mundo bem melhor do que o encontrei, nem que sejam apenas sorrisos.
Mas sei que isso não chega.
O local para mim não importa, contanto que vou estar ao lado dos que pouco ou nada possuem.
E eu, eu aqui tenho tudo.Tudo e mais alguma coisa.Tenho demais.
É tempo de aprender a viver com bem menos, abdicando de uma série de confortos e caprichos, que até aqui eram normais, mas que sempre me fizeram uma certa confusão.
Tenho para mim que ser missionário é proclamar com a vida e com a voz, que Deus nos ama. A linguagem dos gestos é universal e de fácil leitura.
A força de um coração é maior, do que a força de um corpo.E portanto não há barreiras, que não possamos transpor.E Deus só pede a cada um, aquilo que ele sabe que cada um é capaz de dar.
Entende-se assim que a minha ocupação fundamental durante os próximos 5 meses será o estudo da língua do povo com quem vou viver. O tetum.
O discurso das palavras tem que ser traduzido para ser significante.
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Muitos desejam ser enviados para o Brasil ou para Moçambique, pois assim não têm que aprender a língua...mas falar Português.
Aprender a língua, contudo, não chega. É necessário entrar na história, cultura e costumes deste Povo, para poder passar-lhes Deus, Amor e o Envagelho.
Livros sobre a cultura são uma boa ajuda, mas não substituem as visitas às famílias e participação nos momentos mais importantes das suas vidas, quando somos convidados.
Mas a solidariedade e a amizade também se fazem de silêncios…e como aprendi isso, este ano.
Estudar a língua e descobrir a cultura são dois aspectos de um processo de aprendizagem mais vasto e que passa pela reciclagem do próprio viver.
Por estes dias fiquei a saber muita coisa que ainda não sabia, mas que me tranquiliza. Não poderei levar na mala o ritmo de vida que levo em Lisboa. Terei que inventar rotinas novas.Porque já me disseram que o povo Timorense vive com muita calma, e respeita sem fim, o ritmo de cada um.
A princípio talvez me vá sentir um pouco perdida, num ambiente estranho e sem pontos de referência, com lágrimas nos olhos e no coração, por isso todos passam...mas isso é sinal do amor, que deixámos nos que se cruzaram connosco e foi esse amor que nos fez ir e nos levou até ali.Foi esse amor que me trouxe aqui, ao ponto de ver claramente o caminho a seguir.
Começarei por acertar o relógio biológico pelo fuso horário do país: levantamo-nos com os galos e deitamo-nos com as galinhas, porque não há rede eléctrica e é o Sol que determina o ritmo da vida.
Para ter rede de telemóvel há que andar uma hora e meia, até ao cimo da montanha.
Das torneiras não sai um fio de água.
As estações do ano também andam trocadas: Em Timor é sempre verão…apenas na montanha há mais humidade.
Terei que ajustar o próprio conceito de tempo.Mas para quem como eu, aprendeu a viver com mais calma nestes últimos 4 anos...foi um treino, sem o saber.
Aprender a viver de novo é um processo que não será fácil, mas nunca estive tão certa do que quero neste momento, e de que bastará ser aquilo que sou, para que tudo corra bem.
Tudo tem o seu tempo.
O meu tempo é agora, de me dar, de me descobrir, de ir mais longe.
Mas através de tudo o que tenho vivido, e ao olhar para trás, revendo a minha caminhada, sei que Jesus está aqui comigo e me dá a coragem e os meios necessários para cumprir esta nova fase da minha vida missionária.
A luta, essa, tenho de ser eu a travá-la – e de cara alegre, como sempre tive! – porque esse é o jeito de Deus.
Deus tem-me manifestado o seu carinho e ternura através do afecto, encorajamento e preocupação de tanta gente, companheiros de caminho, de quedas e alegrias, muitos amigos.
É verdade que a minha vida levou uma grande reviravolta, nestes últimos 2 meses, uma reviravolta interior, enquanto pensava nesta decisão, mas não posso esconder, que desde logo ouvi o meu sim.
Agora, que o tempo começa a contar e vai voar, não tenho porquê esconder de ninguém.
Este verão pus-me á prova, fui ao limite, quis saber de mim...e encontrei respostas.
Algumas excluem relações com pessoas, costumes que tenho, mas se não for assim não partirei livre.
Sei, que a reviravolta será ainda maior...depois, lá, e quando regressar, mas não me ocupo disso, neste momento, quero preparar-me de alma e coração, pois esses serão os meus grandes aliados, perante umas pernas que caminham firmes, mas devagar!
E agradeço a Deus por me enviar como sua missionária para aquelas montanhas verdejantes no meio de gente tão simpática, acolhedora e linda, como me descreveram.Agradeço também as dificuldades que vou encontrar, pois nem tudo são rosas.
Este tempo parei para ouvir quem lá está, para me assustar, para me dar espaço a mim , de fraquejar e dizer que não sou capaz, mas não o senti, nem por um momento.
Humanos somos todos e mente aquele que disser, que partiu sem ansiedade e receio normal de quem vai ao desconhecido.Mas quem parte com fé...parte feliz!
Aquilo que precisava ouvir, disseram-mo com imensa ternura, e face ao Não que ouvi, há uns anos atrás, oiço agora um sim.
E eu digo um SIM ainda maior e mais seguro, por mim guardado há muito muito tempo, com amor.
E é com um sorriso rasgado e os olhos rasos de água...que eu digo:
Obrigado Pai, no dia em que partir, esse será o dia mais feliz da minha vida.
1 comentário:
:D
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