domingo, 9 de março de 2008

Deste lado do espelho...











Deste lado do espelho pouca coisa há. Mas alguma coisa se há-de arranjar, por pouco que seja.



Um sorriso, um afago, uma luz qualquer, talvez difusa.



Deste lado do espelho as flores dançam e o mar agita-se, levemente.



Deste lado do espelho há um abrigo, um caminho novo por trilhar, uma vida inteira para inventar. E o sorriso seria já quase um abraço.Se quisessemos.



Deste lado do espelho há uma verdade que não magoa, antes ilumina, como a mão traquila que conduz uma criança ao outro lado da vida.



Deste lado do espelho há a bonomia dos dias perdidos e a nostalgia das noites por haver. Há um espanto original ante a diversidade das coisas e do que nelas e por elas se pensa, se vive, se sente, se imagina, apenas.



Deste lado do espelho há uma travessia renovada, um corpo agitado à procura do silêncio primordial que apazigua o seu inexorável desassossego.



Deste lado do espelho há uma espiral de cores e de sons, de palavras e de traços incertos, artisticamente redimidos na firmeza do instante.



Deste lado do espelho fica aquilo que tu procuras, mas não sabes definir. O palpitar doce e suave do coração, a claridade licorosa dos olhos e a abertura amigável que o sorriso rasga, renova e oferece.



Deste lado do espelho há crianças que brincam nos jardins da imaginação, mulheres que aprenderam a doar e homens que se arrependem da irracionalidade intempestiva dos seus medos.



Deste lado do espelho há uma brisa que te acaricia a face como um beijo improvável numa noite fria.



Uma lua que se derrama num céu de estrelas e a paleta ainda intacta do pintor desconhecido. Deste lado do espelho há um sonho ancestral que ficou por cumprir. Uma mão aberta à ternura que passa e se demora e aprende a ficar.



Deste lado do espelho está aquilo que somos e nos ajudaram a esquecer em falsos trejeitos de memória.



Deste lado do espelho há fragilidades de infância que desabrocham em peitos desencantados. Deste lado do espelho há um caminho, um sonho, uma vida.



E a certeza do tempo reencontrado.



Só o amor que alimentamos dentro de nós, a sós connosco próprios, se pode exteriorizar e tocar o outro.



Mas aprendi que o templo que construímos no coração, tem a dimensão do nosso ser e do nosso amor, e mesmo que acabe onde nós acabamos, a luz que dele irradia é provavelmente a nossa única oportunidade de tocar o Eterno.


Sem comentários: