terça-feira, 19 de setembro de 2006

Era uma vez uma menina que coleccionava tesouros. E que são os tesouros, senão objectos subjectivamente preciosos?
Sem se tratar de diamantes ou esmeraldas, as gavetas e as prateleiras encontravam-se apinhadas de pequenos "lixos" caseiros de valor infinito atribuído pela própria. Flores de papel, conchas da praia, pedrinhas de cores, folhas secas, caixinhas de madeira, fios de algodão,Fotografias sorridentes dos amigos...os de longe e os de perto!!hummm aqueles momentos,intensos a lembrar cada dia!! enfim, "coisas"... que a faziam feliz!
E um simples bloco,onde desenhado estava, a aldeia mais bela do mundo,Taizé.
A janela do seu quarto era uma janela para o mundo.
Cada bocadinho do seu tempo era reservado a pensar nos amigos,e nas coisas boas da vida,aquelas mágicas... nos acontecimentos que se passavam do outro lado do mundo,mas que ela não podia resolver...mas desejava muito que mudassem.E em tudo o que de bom tinha,VIVER. Aliás o seu único e grande sonho...
Depois, anotava nesse bloco da aldeia, os detalhes preciosos que captava.E escrevia cartas.Cartas soltas,para quem amava.
De manhã ela gostava de observar a agitação matinal,própria de uma cidade...mas sonhava amanhecer no campo um dia...junto a um rio,e ao verde!
Por volta das 8 horas da manhã, ela saia para a rua,e começava mais um dia, feito de pequenos nadas,preciosos.
Sabia, que havia uma senhora que passava pela rua sempre com uma criança ao colo e outras duas pela mão, provavelmente para ir levar ao infantário.E mesmo no meio da multidão, ela sorria para estas crianças e para esta mulher, todos os dias.
Depois havia o rapaz que estava sempre na fila do autocarro. Magro e moreno, de aparelho nos dentes. Tímido como só ele, mas de uma sensibilidade incrível, achava a menina.
Por volta da hora de almoço, ela sabia que os cafés se enchiam de confusão...de gente,em encontros imediatos,de 30 minutos...(o que é isso?).Mas ela ia para onde ninguém vai á hora de almoço,para o jardim,ler,fechar os olhos e ouvir crianças a brincar,que paz!
Era também por volta dessa hora que ela "perdia" um pouco do seu tempo a olhar para o sol no seu auge e para o azul do céu, tão azul.
Do alto do seu "palácio cor de rosa", a menina via as horas passar velozmente, como só o tempo sabe, sorrateiro e sem retrocessos, e percorria com os olhos o dia-a-dia de uma cidade inteira,sabendo que nessa cidade se moviam também os que amava,e como isso a deixava feliz...e claro, sempre anotando o que de mais relevante encontrava.
Mas para ela, a personagem mais interessante era sem dúvida, Alguém, que ela não podia ver,mas sentia perto,tão perto... que todos os dias a fazia sorrir,e sentir-se amada...Alguém,que lhe tinha dado a vida,e ela agradecia todos os dias por isso.
E não há maior amor,do que aquele que dá a vida pelos seus amigos.
Poucos eram os dias em que ela não conversava com esse Alguém,ás vezes até discutia...por não compreender certas coisas.Cconversas interiores...Intímas.Suas, tão suas.
Pelo mundo, ela encontrava muitos olhares,alguns como os de quem chora todos os dias antes de adormecer.E a sua vontade era abracá-los,mas que julgariam??Já ninguém sai por ai aos abraços...
Outros olhares eram felizes e brilhantes e esses eram os que lhe davam vida.
Era sobre olhares que a menina mais escrevia, imaginado o que levava uma pessoa a viver todos os dias assim tão feliz ou tão triste.
Só podia ser a Vontade de viver,de amar,de dar...esse brilho!!!
Ou tristes,pela perda de um filho,de um pai de uma mãe...de um amigo,e de alguém que se ama de verdade,porque isso, é também um tesouro, não é?, interrogava-se a pequena.
Mas esses tesouros, ela não podia guardar no seu quarto,nas suas caixinhas,esses tesouros deixava-os livres...e guardava-os nela própria,e que melhor local podia haver.Assim estavam sempre com ela.
Um dia,ela encontrou um olhar,que a fez estremecer,lá por dentro,que lhe tocou,onde nenhum outro mais tinha tocado...
Um olhar,que ela nunca vai saber explicar,mas que com o qual se perde...e sonha,um olhar que ela acredita ser o que a vida inteira procurou,e nunca viu,em lado nenhum...
E então ela escreveu,no bloco da aldeia,o que lhe ia na alma........esta história.

Subitamente, ouve-se um barulho na porta do quarto, que acaba por abrir-se instantes a seguir. Era a mãe da menina,que chama para jantar... Isto não teria muita importância, não fosse tratar-se do acordar de um sonho...
A menina levantou-se,guardou o bloco da aldeia na gaveta,sorriu...e saiu do seu quarto,fechando a porta atrás de si...
No quarto era o silêncio.
O vazio.

Só restavam as memórias dentro do palácio cor de rosa.

E os tesouros.

2 comentários:

Jorge Mestre disse...

Oi.
É indiscutivelmente a história mais bonita que uma menina jamais sonharia escrever. Sabes? Há dias em que me interrogo acerca do valor que as coisas têm...realças um, que nem por vezes é perceptivel ao olho humano, mas sem duvida o mais importante...o valor da vida! Aquilo que ela nos pode oferecer não é nunca comparável áquilo que pensamos nós poder desfrutar nela...também sonhei uma história parecida...com alguém que me faz sentir diferente e que tu bem conheces. Beijinhos, agradeço a Deus o facto de me colocar no caminho, pessoas que me fazem sonhar, pessoas que me fazem perceber que afinal muito há ainda a fazer nesta vida...gostei tb de te conhecer. :)

Lua disse...

Pst, bandida, vou-te dizer um segredo... acho que tu já sabes, mas vou-te dizer na mesma... é que... bem... ainda se sai por aí aos abraços... e os nossos, repenicados, de duas, ou de três!, cheios, de braços que envolvem mesmo, querem dizer tudo isso que tu sabes e que eu sei.

(...e eu nem preciso olhar para ti para ver o brilho... hi, hi)