terça-feira, 13 de novembro de 2012

Last moments in MOZAMBIQUE


























O últimos momentos em Moçambique foram de uma intensidade que jamais saberei explicar.
Se por um lado captava tudo, sabendo que eram mesmo os últimos dias e os vivia intensamente, com o dobro dos sorrisos, abraços e momentos de festa, por outro...o meu coração ia ficando pequeno, silenciado,chegado a um limite.
O que nos consola nestas partidas e o sentimento de missão cumprida e de ter atravessado todos os obstáculos com uma garra incrível que nem eu sei onde fui buscar?
E todo o reconhecimento por parte das pessoas com quem trabalhei, que me deram a certeza de que não podia ter sido melhor...para ambas as partes.
Aquele era o meu dia a dia, a minha rotina, os meus afazeres que cumpria com um agrado que poucos devem sentir nos seus trabalhos diários.Não era o meu trabalho, era a minha vida e só eu sei porque o digo assim, desta forma forte e radical.
Esqueci todos os perigos, esqueci todos os riscos, ignorei todas as coisas pequenas e insignificantes...e somente me dediquei a fazer o que realmente entendi ser fundamental, para essa mudança que quis.
Agora sei que a mudança em mim, essa foi enorme.E devo-a a cada pessoa, com quem me cruzei, mesmo aquelas que me chocaram, pela atitude negativa e pouco comunicativa.
Ao passo que ia pensando no regresso e em todos os reencontros...quem me iam encher de vida, pensava também em tudo aquilo que se vive uma vez na vida, em determinado lugar.Porque o vivi ali e nunca o viverei dessa forma, neste tempo, com aqueles rostos e vidas...perto de mim.
A vida vai avançando...e as pessoas mudam de lugar, mudam de rumo...mas acredito que nelas fica sempre, o que deixamos de bom.Pelas minhas mãos, passaram 90 crianças em sala, mais as que vinham fora do contexto escolar.Vi-as evoluir e aprender a ler e a escrever correctamente,vi-as desabrochar em afectos e regras que desconheciam.Partilhamos tudo, juntos, como se de um mesmo barco se tratasse.
E eles, como me fizeram descobrir capacidades que desconhecia em mim, ou aprofundar aquelas que já me caracterizavam.Foi dos momentos mais fortes da minha vida.
Refugiei-me no lago pela  última vez  durante 4 dias, para me despedir com calma, daquelas águas onde eu mesma desaguei muitas vezes...num ano e meio.Vi e senti tudo o que queria sentir antes de partir.E pela natureza dos dias antes de uma partida, não pude despedir-me de toda a gente como gostaria, e a alguns nem disse um último adeus.Mantenho aceso o desejo de voltar,um dia.
Entrei num avião, onde assim que levantei voo, foi assolado por uma chuva tropical enorme, a primeira da época, não tinha chovido durante meses.Achei curioso.
E fui sentido, hora a hora, milha a milha, Moçambique a ficar mais longe...os rostos de olhos brilhantes,ainda olhando para mim, por uma última vez...o cheiro daquela terra cheia de magia, os sons, que me agitavam a alma... ao nascer do dia.
Desembarquei numa Lisboa bem mais fria, mergulhada em crise, mas sempre bela.Ainda assim tudo me pareceu artificial e demasiado automatizado.
A verdade simples, ficou naquilo que se deu, longe.
Tudo,tudo impresso neste coração, para a vida.

domingo, 16 de setembro de 2012

Até sempre Moçambique...









A escrita, que tanto amo, tem ficado para 2º plano, quando a urgência de viver os dias que me restam aqui...se impõe.
Desde o mês de Agosto que o meu pensamento se foca no dia da partida.
Como vai ser?Pergunto-me vezes sem conta,olhando os olhos de cada um...olhando o horizonte.E a resposta não demora.Será duro.Será um corte nos meus dias.Deixar o sol de um Verão que aqui começa, e mergulhar num Inverno que por dentro me deixará chorar muitas vezes.

A 40 dias de partir do meu Moçambique, ocorrem-me muitas coisas.

A primeira será voltar aqui.Continuar o trabalho e ser parte desta construção por um País melhor, onde os dramas da crise não chegam e não nos atormentam, porque aqui, sempre falta alguma coisa, mas sempre há solução.Mas para já isso é impossivel.É tempo de regressar e eu sei isso.
A segunda, é levar comigo uma vida que fui conhecendo, pequenina, com vista a dar-lhe um futuro melhor, amor e cuidados que aqui lhe faltam por completo.Ocupar-me dela, passar-lhe os meus valores e vê-la  crescer junto de mim, será estar sempre perto deste meu Moçambique, deste meu Niassa...que me ensinou tanto.Mas esta é uma luta ainda a decorrer e quando quase ninguém nos apoia nesta decisão, torna-se mais difícil.Mas não impossível.E nada está perdido.
A terceira, sinto que vivi a experiência mais marcante da minha vida.Fazer parte destas vidas e cultura por um ano e meio.É um orgulho no peito pelos meus meninos, pelo trabalho conseguido com êxito e muitos sorrisos e bons momentos á mistura.Essa foi a razão que me trouxe aqui.
E em quarto lugar, ocorre-me tudo aquilo que foi menos bom, aquilo que me fez sofrer e desesperar por vezes, aquilo que me fez sentir medo, como um ser humano que sou, fez-me no fundo, muito bem.
Deu-me mais força e reforçou a ideia de que nunca devemos desistir dos nossos objectivos.Sejam eles quais forem, são os nossos e só nós sabemos porque nos movemos.
Afinal sou mais forte do que ainda julgava...ser.Afinal, tudo o que desejo, acontece, porque o desejei com toda a alma.E acredito nessa força interior como uma luz que nos leva onde mais queremos.Que nos leva aos outros e por isso, a nós mesmos.


Ás vezes parece que é mentira, que vou partir.O sentimento que tenho é de que eu nunca vou partir, nunca vou deixar de percorrer estes caminhos, de receber este sol na pele,nunca vou deixar de sentir este ar puro e este cheiro único, esta terra vermelha...que me pinta por completo o coração.
Nunca vou deixar de ouvir os gritos dos meus meninos a brincar ou a chamar por mim, logo pela manhã.Nunca vou deixar de dançar noites inteiras e sorrir entre amigos, debaixo de um céu estrelado, nunca vou deixar de sentir a imensidão de uma terra que parece não ter fim, com um sol vermelho ao fundo a chamar por mim.No fundo, eu nunca vou deixar nada disto.Porque isto já é parte de mim, como um membro.
Deixo Moçambique, sentindo o que é sempre inevitável de sentir...que mudei.Todas as experiências nos transformam.Sou previligiada.
Sei que vivi.Sei que dei mais do que ás vezes podia, sei que recebi em doses industriais, carinho, amor, cor...que nunca mais se vão apagar de mim.

Agora, espero o que vier de peito aberto.
Agora, para ser sincera, não sinto vontade absolutamente nenhuma de chegar a um Portugal que vai de mal a pior, embrenhado em crise e em corrupção, em desordem e descontentamento geral.Quando eu vou chegar cheia de verdade, vontade de viver e ser positiva...cheia de um brilho que se ganha quando se ama incondicionalmente e de espalhar esta energia a quem comigo estiver.
Mas de uma forma ou de outra somos sempre apanhados pelas notícias diárias que nos desanimam...e entristecem.E não vai demorar sequer 1 mês até sentir-me desolada e com umas saudades loucas de tudo o que aqui vou deixar.Esse silêncio que pesa, que conheço bem, porque já cheguei e parti muitas vezes.E sei o que se sente.E os planos nunca estavam totalmente delineados, surgiram somente.Por isso, não levo um plano traçado...vou deixar que a vida fale por si mesma.Pois entendo ser a melhor opção.Não vou querer controlar tudo, porque aprendi que as coisas sabem melhor e são mais genuínas quando as deixamos acontecer.Mesmo que possamos passar a imagem que somos loucos e inconscientes, a imagem é uma coisa e a verdade é outra.Mas a felicidade e a realização pessoal, essa, é só nossa, que somos donos do nosso destino...e só nós podemos desenhá-lo e por isso pintá-lo com as cores que escolhermos...para o darmos a quem mais quisermos e precisar de nós.
Há pessoas que não pensam assim.Vivem esperando que as coisas caiam do céu...e nem colocam a hipótese de se dar aos outros e por isso se sentem infelizes e insatisfeitas.Ainda não sabem o segredo da vida.Quando nos damos, tudo muda.Ganha sentido.E então valeu a pena vir ao mundo e viver.E viver não é ter dinheiro, não é ser poderoso...não é enganar alguém.Por aí não passa a vida.Passa uma morte antecipada ainda em vida.
E isso eu nunca vou escolher para mim.


Assim sendo, no dia 26 de Outubro, pela manhã estou a romper os céus de Lisboa, certamente depois de algumas lágrimas e muitos abraços de despedida.Não sei se algum dia voltarei a pisar Moçambique.E isso pesa muito.
Mas Moçambique vai estar comigo todos os dias.
Mas ao mesmo tempo, há um respirar fundo, por estar de volta a casa, pronta a abraçar o que vier.
Novos desafios e sonhos acabam por surgir.E eu sei isso.É como um ciclo.Sei que no fundo, consigo ser feliz em todo o lado.Porque a questão é a forma como vemos e abraçamos a vida.Seja lá onde for.
Acima de tudo, anseio por reencontrar as vidas que deixei por lá e me fizeram também a Rita que hoje sou.E se esses abraços vão ser força?Preparem os ombros e uma boa dose de paciência.Vou precisar.

Mas agora, se me permitem, só penso na dor que é partir.E foco-me nisso, porque me aconchega e sabe bem,ainda que me traga algum sofrimento leve, pois o que vivi foi estrondoso e cheio de coisas boas.
Apenas sei onde reside a verdade das coisas, apenas já sei, depois de todos estes locais, experiências, o que quero para mim...e qual o lado da vida que me apraz.A verdade reside no que é simples.Onde não existe quase nada.
"Pronta"?... a chegar a uma Europa onde não falta quase nada, no que toca a meios, mas onde falta tudo no que toca a valores.
Então escolherei este lado da vida...sempre.



O meu até breve, Europa, Portugal.
O meu até sempre... Moçambique, Niassa.
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Holidays part 2


































Mudei o local, mas não o espiríto.Mudei a rota, mas não as águas do meu lago Niassa.
Mudei as distâncias, mas não o sentimento de estar longe e entregue a uma natureza pura que me acalma, pacifica, mima...embala.
Na mesma semana, percorri as margens do lago, para sul e para norte.Encontrei outros rostos e lugares.Aventurei-me.E este sentimento tomou conta de mim.Uma liberdade sem fim...que perdurará para o resto da vida.Estou certa que um dia muito longe...daqui, vou sorrir por dentro, pensando no que andei e respirei, neste tão querido e Amado Moçambique.
Bem ao meu jeito.





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Férias...

























Largar tudo.Parar.
Não olhar para trás.Não levar ninguém.Contar apenas com as pessoas que vamos encontrar pelo caminho.
Surpreendermo-nos.Com o silêncio.Com as cores que o mundo nos dá, tão gentilmente.
Foram as melhores férias da minha vida.Longe.
Em paz.Mergulhada nesta cultura tão profunda, onde gnomos e fadas daqui me enchem a alma de forma tão marcante.
Únicas e inesquecivéis.
Há momentos assim, que nos marcam para o resto da vida...