domingo, 16 de setembro de 2012

Até sempre Moçambique...









A escrita, que tanto amo, tem ficado para 2º plano, quando a urgência de viver os dias que me restam aqui...se impõe.
Desde o mês de Agosto que o meu pensamento se foca no dia da partida.
Como vai ser?Pergunto-me vezes sem conta,olhando os olhos de cada um...olhando o horizonte.E a resposta não demora.Será duro.Será um corte nos meus dias.Deixar o sol de um Verão que aqui começa, e mergulhar num Inverno que por dentro me deixará chorar muitas vezes.

A 40 dias de partir do meu Moçambique, ocorrem-me muitas coisas.

A primeira será voltar aqui.Continuar o trabalho e ser parte desta construção por um País melhor, onde os dramas da crise não chegam e não nos atormentam, porque aqui, sempre falta alguma coisa, mas sempre há solução.Mas para já isso é impossivel.É tempo de regressar e eu sei isso.
A segunda, é levar comigo uma vida que fui conhecendo, pequenina, com vista a dar-lhe um futuro melhor, amor e cuidados que aqui lhe faltam por completo.Ocupar-me dela, passar-lhe os meus valores e vê-la  crescer junto de mim, será estar sempre perto deste meu Moçambique, deste meu Niassa...que me ensinou tanto.Mas esta é uma luta ainda a decorrer e quando quase ninguém nos apoia nesta decisão, torna-se mais difícil.Mas não impossível.E nada está perdido.
A terceira, sinto que vivi a experiência mais marcante da minha vida.Fazer parte destas vidas e cultura por um ano e meio.É um orgulho no peito pelos meus meninos, pelo trabalho conseguido com êxito e muitos sorrisos e bons momentos á mistura.Essa foi a razão que me trouxe aqui.
E em quarto lugar, ocorre-me tudo aquilo que foi menos bom, aquilo que me fez sofrer e desesperar por vezes, aquilo que me fez sentir medo, como um ser humano que sou, fez-me no fundo, muito bem.
Deu-me mais força e reforçou a ideia de que nunca devemos desistir dos nossos objectivos.Sejam eles quais forem, são os nossos e só nós sabemos porque nos movemos.
Afinal sou mais forte do que ainda julgava...ser.Afinal, tudo o que desejo, acontece, porque o desejei com toda a alma.E acredito nessa força interior como uma luz que nos leva onde mais queremos.Que nos leva aos outros e por isso, a nós mesmos.


Ás vezes parece que é mentira, que vou partir.O sentimento que tenho é de que eu nunca vou partir, nunca vou deixar de percorrer estes caminhos, de receber este sol na pele,nunca vou deixar de sentir este ar puro e este cheiro único, esta terra vermelha...que me pinta por completo o coração.
Nunca vou deixar de ouvir os gritos dos meus meninos a brincar ou a chamar por mim, logo pela manhã.Nunca vou deixar de dançar noites inteiras e sorrir entre amigos, debaixo de um céu estrelado, nunca vou deixar de sentir a imensidão de uma terra que parece não ter fim, com um sol vermelho ao fundo a chamar por mim.No fundo, eu nunca vou deixar nada disto.Porque isto já é parte de mim, como um membro.
Deixo Moçambique, sentindo o que é sempre inevitável de sentir...que mudei.Todas as experiências nos transformam.Sou previligiada.
Sei que vivi.Sei que dei mais do que ás vezes podia, sei que recebi em doses industriais, carinho, amor, cor...que nunca mais se vão apagar de mim.

Agora, espero o que vier de peito aberto.
Agora, para ser sincera, não sinto vontade absolutamente nenhuma de chegar a um Portugal que vai de mal a pior, embrenhado em crise e em corrupção, em desordem e descontentamento geral.Quando eu vou chegar cheia de verdade, vontade de viver e ser positiva...cheia de um brilho que se ganha quando se ama incondicionalmente e de espalhar esta energia a quem comigo estiver.
Mas de uma forma ou de outra somos sempre apanhados pelas notícias diárias que nos desanimam...e entristecem.E não vai demorar sequer 1 mês até sentir-me desolada e com umas saudades loucas de tudo o que aqui vou deixar.Esse silêncio que pesa, que conheço bem, porque já cheguei e parti muitas vezes.E sei o que se sente.E os planos nunca estavam totalmente delineados, surgiram somente.Por isso, não levo um plano traçado...vou deixar que a vida fale por si mesma.Pois entendo ser a melhor opção.Não vou querer controlar tudo, porque aprendi que as coisas sabem melhor e são mais genuínas quando as deixamos acontecer.Mesmo que possamos passar a imagem que somos loucos e inconscientes, a imagem é uma coisa e a verdade é outra.Mas a felicidade e a realização pessoal, essa, é só nossa, que somos donos do nosso destino...e só nós podemos desenhá-lo e por isso pintá-lo com as cores que escolhermos...para o darmos a quem mais quisermos e precisar de nós.
Há pessoas que não pensam assim.Vivem esperando que as coisas caiam do céu...e nem colocam a hipótese de se dar aos outros e por isso se sentem infelizes e insatisfeitas.Ainda não sabem o segredo da vida.Quando nos damos, tudo muda.Ganha sentido.E então valeu a pena vir ao mundo e viver.E viver não é ter dinheiro, não é ser poderoso...não é enganar alguém.Por aí não passa a vida.Passa uma morte antecipada ainda em vida.
E isso eu nunca vou escolher para mim.


Assim sendo, no dia 26 de Outubro, pela manhã estou a romper os céus de Lisboa, certamente depois de algumas lágrimas e muitos abraços de despedida.Não sei se algum dia voltarei a pisar Moçambique.E isso pesa muito.
Mas Moçambique vai estar comigo todos os dias.
Mas ao mesmo tempo, há um respirar fundo, por estar de volta a casa, pronta a abraçar o que vier.
Novos desafios e sonhos acabam por surgir.E eu sei isso.É como um ciclo.Sei que no fundo, consigo ser feliz em todo o lado.Porque a questão é a forma como vemos e abraçamos a vida.Seja lá onde for.
Acima de tudo, anseio por reencontrar as vidas que deixei por lá e me fizeram também a Rita que hoje sou.E se esses abraços vão ser força?Preparem os ombros e uma boa dose de paciência.Vou precisar.

Mas agora, se me permitem, só penso na dor que é partir.E foco-me nisso, porque me aconchega e sabe bem,ainda que me traga algum sofrimento leve, pois o que vivi foi estrondoso e cheio de coisas boas.
Apenas sei onde reside a verdade das coisas, apenas já sei, depois de todos estes locais, experiências, o que quero para mim...e qual o lado da vida que me apraz.A verdade reside no que é simples.Onde não existe quase nada.
"Pronta"?... a chegar a uma Europa onde não falta quase nada, no que toca a meios, mas onde falta tudo no que toca a valores.
Então escolherei este lado da vida...sempre.



O meu até breve, Europa, Portugal.
O meu até sempre... Moçambique, Niassa.
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Holidays part 2


































Mudei o local, mas não o espiríto.Mudei a rota, mas não as águas do meu lago Niassa.
Mudei as distâncias, mas não o sentimento de estar longe e entregue a uma natureza pura que me acalma, pacifica, mima...embala.
Na mesma semana, percorri as margens do lago, para sul e para norte.Encontrei outros rostos e lugares.Aventurei-me.E este sentimento tomou conta de mim.Uma liberdade sem fim...que perdurará para o resto da vida.Estou certa que um dia muito longe...daqui, vou sorrir por dentro, pensando no que andei e respirei, neste tão querido e Amado Moçambique.
Bem ao meu jeito.





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Férias...

























Largar tudo.Parar.
Não olhar para trás.Não levar ninguém.Contar apenas com as pessoas que vamos encontrar pelo caminho.
Surpreendermo-nos.Com o silêncio.Com as cores que o mundo nos dá, tão gentilmente.
Foram as melhores férias da minha vida.Longe.
Em paz.Mergulhada nesta cultura tão profunda, onde gnomos e fadas daqui me enchem a alma de forma tão marcante.
Únicas e inesquecivéis.
Há momentos assim, que nos marcam para o resto da vida...





domingo, 15 de julho de 2012

Antes de partir...deixo em pedaços o que me faz tão feliz.









  
É preciso aprender a aprender...

Tu, amanha não serás igual ao que és hoje, da mesma forma que hoje não és igual ao que eras ontem.Isso é uma garantia. Não é que seja daquelas garantias de um carro ou de um electrodoméstico.É uma garantia da vida.Vitalícia. Tal e qual como uma garantia que o teu sorriso e o teu olhar são uma força inabalável, de força e poder incalculáveis.
E mesmo que na incerteza possas fracassar, sabes perfeitamente que tens onde te agarrar.Em ti mesma, e nos que sempre te ampararam.A lágrima que por vezes derramamos pode ser tão boa e tão forte quanto o sorriso e a gargalhada que tantas vezes demos.Choramos e rimos por querer e sem querer e algumas das vezes nem sequer soubemos o significado de tal, mas fizémo-lo.
Falamos sozinhos e somos loucos e dizemos barbaridades e somos malucos, mas o que é que isso importa?A verdade é que a loucura, pode ser tão dócil quão o pôr do sol com um copo de vinho, uns caracóis e uma agradável companhia, em silêncio, apenas quebrado por olhares que se falam...oh se se falam... tantos segredos desvendados no silêncio.
O fizemos, o cremos....a certeza una de possuirmos o dom mais forte do mundo reside no nosso coração e de sabermos que amanha será um novo dia e que o hoje, o vivemos da melhor maneira e que ficará para a história,a  recordar dentro do nosso livro fotográfico de memórias.
Amanhã não seremos iguais, mas com a certeza que continuaremos unidos com o abraço do sorriso, da lágrima e de coração cheio.

É a certeza que temos.



Parto numas mini férias, de mochila ás costas e sem destino certo,porque viajar é mudar a roupa da alma...
Até ao meu regresso.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Sobre o encanto e o desencanto.




Nestes 30 anos de vida e nestes 3 anos longe de casa, aprendi, entre muitas coisas, o significado do encanto e do desencanto que podemos nutrir por alguém.
Este assunto tem-me ocupado a mente nos últimos tempos...em especial porque passa cada vez mais tempo que deixei aqueles que amo para trás...apenas em Km.
Há pessoas que nos encantam á partida, desde o primeiro instante.E esse encanto é capaz de perdurar para sempre.É tiro e queda.E a ele se devem grandes amizades, amores, histórias mirabolantes de pontes entre seres humanos.
Há outras pessoas que nos encantam inicialmente, mas á medida que o tempo passa, nos vão demonstrando o que realmente são.E sim, somos alvo de algumas desilusões....que mais tarde ou mais cedo acabam por cair em esquecimento ou numa fraca e ténue lembrança.
Mas ainda há,as pessoas que nos encantam...e se encantam por nós.Descobrem os nossos defeitos e nós descobrimos os seus
 e aprendemos a amar cada um deles, porque amamos também as coisas boas.
E quem gosta, aprende a ser paciente e a aceitar tudo aquilo que de menos bom...existe numa pessoa.As pessoas não se revelam de um dia para o outro.
É um processo lento e com muitos retrocessos.Podemos ter uma ideia do que aquela pessoa é, pelo seu comportamento, pela sua forma de estar, olhar, reagir.Isto sem nunca a podermos julgar, pois o caminho que percorreu até ali...ninguém pode avaliar.Não sabemos como e onde foi feliz, quantas vezes caiu e se levantou...as vitórias que conseguiu, as derrotas que sofreu.Calçar os sapatos dos outros é a melhor forma de os compreender.
Um destes dias, alguém me dizia que uma pessoa acaba por ser como uma flor, que é preciso regar, colocar ao sol, retirar as folhas secas, saber esperar que se abra, pois todos precisamos do nosso espaço.Muitas vezes é preciso morrer, secar e voltar a renascer.Como uma flor...que nem sempre está no auge.
Confesso que esta distância que venho mantendo fisicamente do meu País e meio habitual,me tem enriquecido tanto.Tenho vivido momentos tão únicos, tão intensos e que um dia me vão saber tão bem recordar e aplicar, lá numa Europa que agora é distante mas minha.Mas sei que também tem esfriado algumas relações.Elas continuam lá, os sentimentos não morrem.O que se viveu é eterno e trouxe-me até aqui.Mas eu sei que por via de estar sempre longe...acabo por perder os momentos mais significativos de certas pessoas.Seja o casamento,onde gostaria tanto de abraçar, cantar, dançar, testemunhar, seja o nascimento do primeiro filho no qual gostaria de pegar e acariciar, seja o seu crescimento, sejam aquelas noites em que as palavras não cessam...e as risadas fluem, seja uma viagem repleta de aventura, seja o partilhar de pequenas coisas diárias, mas que nos unem tanto.
Ainda assim, são essas pessoas que povoam o meu pensamento, aqui...que me fazem sorrir mesmo na distância, que me encantaram desde o primeiro instante e continuam a fazer-me sentir segura e amada.E assim me mantenho por aqui, absorvida por este mundo á parte...que me vai ensinando novas coisas e mostrando novos seres pelos quais me encanto.Mesmo que me mostrem uma face menos boa, há seres que escondem em si, um infindável mundo de coisas maravilhosas, que só temos que ter paciência para descobrir.
Cada pessoa é uma promessa de vida na nossa vida...é uma nova cor, um novo aroma.São aliás um desafio tão bom de vencer.
E desperdiçar isso seria deitar fora algo precioso e ainda por lapidar.


E isso... eu não faço.