terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

 Leituras

 


 Ando a ler alguns livros de pensamentos que me ofereceram no Natal...Deixo alguns que me marcam por estes dias e aos quais volto, uma e outra vez, antes de dormir.Os citadores, são muitos e conhecidos...outros não.A imagem é de uma criança do Haiti.
Se ela, orfã, com tanto sofrimento, sorri e tem brilho no olhar...




Não deves recusar a dor, porque ela te constrói, te marca os limites e te faz crescer por dentro dos teus muros.
Sem ela, não passarias de um projecto do homem que hás-de ser. Ela edifica-te os músculos, a cabeça e o coração, e não existe outra maneira de chegares a ser aquilo que deves vir a ser.
Se não sofresses não haveria ninguém dentro de ti.


 Não tenhas medo de sofrer. O sofrimento só dói quando não há um sentido que o ilumine, quando não se reveste de amor. Se eu for coxo e cada um dos meus passos me doer, mesmo assim hás-de de ver-me a correr encosta acima, se desse modo me aproximar de quem amo, se lá em cima um filho estiver a precisar de mim. Se reparares bem, notarás que não sofro com as dores que tenho, que os meus olhos brilham, que sorrio.


Não é por termos liberdade que podemos mudar tudo à nossa volta, mas dispomos da faculdade de dar sentido a tudo (o que é muito melhor), mesmo àquilo que não o tem! Nem sempre somos senhores do desenvolvimento da nossa vida, mas somos sempre senhores do sentido que lhe conferimos.



Não somos poupados a sofrimentos, mas é-nos dada a possibilidade de reagir e continuar a avançar. Se temos saudade do que ficou atrás, também nos é permitido sonhar com o que está adiante. Se conservamos o sabor de derrotas que tivemos, também planeamos a vitória que se segue.

Na família, aquilo que os une está num plano imensamente superior a tudo aquilo que os possa afastar. Muito acima das discórdias, das zangas, dos amuos, dos diferentes pontos de vista. Podem as ondas enfurecidas de um mar de inverno salpicar as estrelas? Alguém ligou aquelas vidas com um nó, e a vida de um é a vida dos outros. E o sorriso de um é a alegria dos outros. E a dor de um é a dor dos outros.

Eu gosto de viver. Já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas através de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar viva é sensacional.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O dia de ontem.





Os contornos que tem o impacto de uma morte, na vida de alguém é incalculável.
Ontem, tomei o pequeno almoço com o paulo.Estive quase todo o dia com ele, a ouvi-lo, a permitir que a sua dor saisse para fora.Faz bem, quando podemos falar sobre aquilo que nos prendia a alguém...de forma tão bonita.Sem pressões, sem pressas, com momentos de silêncio.
Fomos até á costa, ver o mar, a praia onde o Pai, adorava ir e passava bons momentos.Ali ficámos a ver o mar, e a respirar o fresco que vinha de lá.A cor do céu, uma promessa para o futuro.
Caminhamos, absorvendo os traços do dia.Depois estive em casa dele, com a família, que há muito sinto um pouco como minha.Em cima da secretária, o paulo guardou com todo o cuidado os óculos do Pai, que sempre lhe pedia para apertar.Tocou-me.
O que me tocou também, foi a serenidade de todos.O que sentir, quando ele já estava a sofrer tanto?
Ali respirava-se paz.
Uma paz, que também eu anseio respirar, pelo meu pai.Ao fim da tarde fui vê-lo.
A sonda mantém-se, as veias vão sendo escassas para colocar agulhas,as veias rebentam e os braços são como um campo de batalha, cheio de manchas.Pediu água, e logo a seguir vomitou essa mesma água.Nada fica lá.
Sinto-o tão cansado.Tão farto de estar ali.Se isto se mantiver mais tempo, ele vai criar feridas no corpo, de estar deitado, disse-nos a enfermeira.
Por mais mimos que lhe possa dar, ele não esconde a sua tristeza e preocupação.O olhar vago.
Deixei-o, para mais visitas que esperavam subir e fui para o Telhal.
Quando entrei na sala de refeições, aqueles rostos mudaram de feição.A minha amizade com aqueles doentes, é tão bonita, que não saberia viver sem ela.Arregacei as mangas e comecei a ajudar, servir aqui, limpar ali, abraçar além...sorrir sempre.
Saimos do telhal, eram 22h, ainda fui jantar com o Duarte, ali pelos lados de Sintra.Chovia muito e encostados ao vidro do "Júlio", mandámos vir um bitoque e muita conversa.O dia terminou mesmo encostada á cama a pensar em tudo isto.
E penso, que a nossa missão na terra é esta mesmo, não pára, onde quer que estejamos, com quem nos cruzamos.Entender a vida como uma missão, ajuda-nos a perceber muito facilmente, onde é, e ainda melhor, onde NÃO é, o nosso caminho.
É tudo uma questão de tempo.Não há como adiar.
Feliz por se desenhar assim o meu caminho.



Ps.Agora vou ao velório do Pai do Paulo.Respiro fundo e lembro-me da força.
 

sábado, 6 de fevereiro de 2010

...eu sinto-o contigo.







Acabei de saber que o Pai do meu melhor amigo o Paulinho, acabou de falecer.
Espero que Deus o tenha com ele.
Ainda ontem, no café, falávamos sobre tudo isto, de terminar a vida, e de como o temos vivido de perto, com os que amamos e da força que tem sido ter-nos um ao outro.
Muita força, nesta hora.Deixo um sorriso nosso a lembrar bons momentos.

E eu, estarei sempre aqui.
Este fim de semana encontram-me pelo Telhal.








Vou para o local, onde me sinto em casa e posso libertar os pensamentos...onde há espaço á minha volta e um mar verde a perder de vista,Há rostos que me sorriem e aos quais é impossivel não sorrir.
Hoje é o lançamento do cd, do Coral Gerações, uma música boa boa que fica no ouvido.Vozes divinas.
Amanhã, é dia de arregaçar as mangas e pôr-me ao serviço.
Sei, que como sempre, venho cheia de energia e com uma paz, que só ali mora.
O meu pai, piorou, e voltou a colocar a sonda no nariz.Mas agora estou com ele a tempo inteiro...e nos próximos tempos também.Ufa, que alívio.
Bom fim de semana.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Café Royale+noite chuvosa+Chá de Hortelã fresca + Scones + Amigos+ Palavras soltas=Noite perfeita











Falta aqui o Alberto.
Foi um serão passado a 3.
Onde?
No café Royale, que nos brinda sempre com meia-luz, e uma música de fundo,doce e macia.
Foi bom, poder partilhar o tanto que se tem acomulado aqui dentro.
Entre um scone, um chá ou um batido royale...o tempo voa.
Uma paragem no meio desta correria, com tempo para mim, e para olhar para as cores, que não deixaram de existir...mas que mudaram ligeiramente de tom.
É tão bom, sentir que as nossas palavras têm retorno, e não ficam no ar.Quando nos ouvem de verdade.
Obrigado, aos 2.Não podia ter sido melhor.
Mesmo com uma noite chuvosa o meu sorriso, ganhou força e um novo brilho.É tudo o que preciso.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Doce sorriso.






O meu dia, foi longo, parecia que não acabava.Sabem quando as horas esticam?
Queria ir ter com o meu Pai.Não pensava em mais nada.As pessoas falam comigo, mas é como se estivesse numa outra dimensão.Não sei bem,como e quando fazer uma paragem, para estar a tempo inteiro com ele.Porque mais tarde ou mais cedo, vou querer fazê-lo
Depois de lhe fazer a barba,enchê-lo de afther shave, e colocá-lo mais fresco...sentei-me no cadeirão.Ficámos á conversa.E o que me sabe bem, estar ali.O mundo pára.
Deixei, o meu Pai a sorrir, muito.
É com esta imagem que o deixei, e é esta que ainda tenho na minha cabeça...e me faz sorrir também, só de o imaginar.Hoje, ele tinha uma paz diferente.Talvez a visita do Alberto o tenha ajudado.
Não há muito que possa alterar e fazer, para além de estar com ele.
Hoje, mal sabia que ia fazê-lo rir tanto.Lembrei-me de algumas cenas únicas, da minha infância, que o fizeram dar umas boas gargalhadas, agarrado á barriga, por causa das dores.Mas este riso, inflitra-se não só no corpo, mas também na alma, eu sei.E ajuda a esquecer tudo o resto.A mim e a ele.
O que nos rimos, com as idas á praia, com a galinha que me atacou no Alentejo e me fez correr como nunca corri, com 5 anos,rimos com as cassetes que ele gravava com as nossas primeiras palavras...e que em modo repeat, eram de morrer a rir.Ainda existem.Vou guardá-las, sempre.
Como guardo hoje, o sorriso do meu Pai.Único, merecido...contagiante.
Vim, mais leve, com este sorriso.
Os dias, têm sido uma sucessão de acontecimentos e sentimentos.

Até amanhã.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sorrindo sempre.Mesmo na Dor.








Estou diante do Portátil, sentada.E eu juro, que com tantas palavras por mim aqui proferidas, hoje,talvez eu não seja capaz de vos dizer, a todos quanto Amo, (e aos que não amo também...mas que por aí andam...), o que estou a sentir.




Deixei o hospital, há mais ou menos 1h.
Ainda não estou em mim.Ainda me sinto dormente.Anestesiada.
Eu sei, que aos amigos que me lêm diáriamente, isto é duro de ler, isto comove, isto custa.Não mais do que a mim, que o escrevo vezes sem conta.Que espero, um e outro dia, por melhoras que não existem.
Os últimos meses, têm sido uma luta.Desgastante,em que se vê uma vida definhar á nossa frente, sem poder fazer nada para a suster.Porque é mesmo assim.
A única coisa que se pode fazer, eu não me canso de fazer é: Estar.A presença, o carinho a atenção, os mimos, tudo isso,mas principalmente a dignidade, o meu pai teve e tem.
Contudo, é muito duro, sabermos que aqueles braços que se movem agora, aqueles olhos que ainda contêm expressão, aquela voz inconfundivel, deixarão de existir, concretas e reais, para se fazerem memórias.Mas ainda não o são, estão ali á minha frente.Como é duro isto.
Hoje, cheguei ao fim da tarde, junto do meu pai.Assim que cheguei, percebi que voltou a não comer.
Já fez 3 transfusões de sangue no espaço de 2 dias.Num hospital, procura-se prolongar a vida, o mais que se pode.Mas eu peço desculpa a quem possa chocar, mas eu não sei, se a minha opinião sobre o prolongar da vida, sem qualidade, não se alterou já, depois de tudo isto.
Queixou-se de ter dores, mal o analgésico acabou de correr.Por mais medicação que possam dar, as dores presistem.E ele, como o conheço, não se queixa.Aguenta, quando não tem que aguentar.
Falei com a enfermeira, para aumentar a dose.Não pode, pois não está prescrito.Eu entendo, mas e então, ele vai ficar sem dormir mais uma noite, por ter dores, até que o médico chegue de manhã e decida aumentar a dose de analgésico?
Nas minhas rotinas com o meu pai, entrei por fim.Luvas de latex, creme hidratante, para as pernas, braços e cara, a pele descama muito.Á medida que o toco no seu corpo fraco e me arrepio por dentro,também me fortaleço, não sei explicar.
Ele olha-se e lamenta o estado em que se vê.Diz que é pele e osso.E eu tento distrair-lhe a atenção...com outras coisas, enquanto as minhas mãos percorrem com cuidado os braços, negros de tantas picadas, em busca de veias.
Depois de lhe lavar os dentes, e entrar e sair do quarto umas quantas vezes, reparo que o seu médico mais antigo, está por ali, cruzamos olhares.Ele viu-me e olhou-me demoradamente.Eu vi-o, mas não o quis olhar da mesma forma, porque não queria ouvir mais nada.
Eu já sei que ele está mal.Eu fui deduzindo muitas coisas,ao longo deste caminho, sem os médicos me dizerem...talvez pela minha própria experiência.Enquanto toda a minha família esperava uma satisfação clínica, eu tirava-a só de olhar para o meu pai.
Mas há coisas, que só quando ouvimos, acreditamos.E eu, habituei-me a estas rotinas, no hospital, a tratar dele, a deixá-lo o melhor que podia, a achar que isso, lhe daria mais vida.E deu.
Ninguém vive sem Amor.
No entanto hoje, soube por aquele olhar, que o médico me iria procurar.
Passados alguns instantes, entra o médico e um estagiário.Fecha a cortina, e começa a apalpação do abdómen, enquanto troca, termos clínicos com o estagiário, que olha o meu pai com um certo ar de pena.Não gostei.Senti-me também eu cobaia.Mas sei que eles aprendem assim.Com quem acaba de chegar ao mundo e com quem está de partida.
Alguma força, trocada entre eles, por se conhecerem há algum tempo.O suficiente, para saber, que este médico fez tudo, mas mesmo tudo o que podia pelo meu pai.
O meu pai de lágrimas nos olhos e eu quase a rebentar também.Mas contive-me.
Ficámos sozinhos.Não falámos sobre nada.Porque o silêncio também fala e diz mais, muito mais nestas alturas.
A parte da despedida, como sempre, custa-me horrores.Não quero ir embora.Todo o tempo do mundo é pouco, neste momento.Se pudesse passava o dia com ele, e a noite.Mas temos que viver, ocupar a cabeça,arranjar forças, sorrir, apesar de tudo.Não é assim?
Quando finalmente, no meu passo lento e meio perdido, me encaminhava para o elevador, o médico, chama-me e diz-me, olhos nos olhos e de mão no ombro:"Ritinha, estamos mesmo no fim..."
Naquele momento, pensei, que se referia á visita ter terminado há 20 minutos e eu ainda ali estar, mas isso acontece todos os dias e nunca me disseram nada, pelo que respondi:" Eu sei, já me ia embora..."
Só, segundos depois, caí em mim.Percebi então, que ele se referia ao meu Pai.
Foi muito claro e apesar de não me dar nenhuma novidade, foi como que congelar o meu coração...que deixou de bater.
Apenas, lhe perguntei ainda, quanto tempo tinha?Ele disse-me que isso nunca sabia ao certo, mas que as coisas estavam mesmo no limite.
E foi a resposta suficiente para me trazer de volta a casa, pelo mesmo caminho de sempre...longe de tudo e de todos.E nesse momento, não estava ninguém lá fora, para me abraçar ou ouvir, como concerteza me ia saber muito bem.Pois é nestes momentos que se cresce e se fortalece uma capacidade de resitência, que muitos, (nem eu mesma) sabem explicar.
Lembro-me de entrar em casa, de me sentar aqui e começar a debitar palavras...aqui estão.Não são um filme, não são ficção...são reais e são a minha vida.
E agora, vou dormir, porque amanhã é outro dia.


(Nem fui visitar o R.Amanhã...)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sábado, 30 de janeiro de 2010

...esta menina, já descansa em paz.









 
 
 
Hoje estou longe e tu partiste, mas continuas a fazer-me sorrir na tua inocência.
Continuo a sentir a expectativa que criavas só de saber que começava mais um dia cheio de brincadeiras novas, que esperavas de mim.Como se eu tivesse uma caixinha mágica onde guardava segredos que todos os dias desvendava para ti...e para as princesas desse teu castelo.Sabes ainda hoje, acho que transporto comigo essa tal caixinha de pequenas magias, que me ajudam a pintar os dias, com palavras "bordadas a purpurina".E foste também tu, do alto dos teus 13 anos, que me ensinaste a fazê-lo.
Na tua bolinha de sabão, que ninguém pode compreender, eras feliz.
E é por isso que eu, te admiro tanto e nunca te esqueço.
Descansa em paz minha querida.
Um dia abraço-te, nesse teu mundo...
 
 
A A. partiu faz alguns dias.Eu apenas soube hoje...
Conhecia-a no centro de recuperação de menores, em Assumar, onde fiz um campo missionário.Conquistou-me desde logo.
Por motivos de privacidade, não posso expor o seu belo rosto.
 
 
 

Fly me to the Moon...







Sabem aquelas noites, em que a lua está cheia, e torna a noite azul...ainda com sabor a dia?
Sabem aquelas noites em que acabam o dia ao pé do mar, que está tão sereno, que parece um espelho e não o mar, e que por isso mesmo, vos apetece caminhar, caminhar e libertar os pensamentos...dar corda ás palavras, ao lado de alguém.Alguém que conhem bem e vos conhece e vos abraça com uma confiança que jamais acabará.Pelos passos que damos, 1000 palavras a sair e a dar forma ao que somos,vivemos, desejamos, tememos, acreditamos.
Ontem foi uma dessas noites e foi inesquecivél.Porque há dias, horas, momentos, que são como marcos na nossa história.Impossivéis de esquecer e mais ainda, possivéis de transformar.Se assim o quisermos.
E tu queres.E eu também por ti...a vida, ainda não sabemos.
O tempo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Aquilo que toco.
 

(Fim do dia no cabo da roca, 2007)



Aquilo que observo, diáriamente, é uma realidade dura, sem dúvida, mas é aquela á qual não posso fugir.Por isso enfrento-a o melhor que sei e sinto.
Quando visito o meu pai, nos inumeros internamentos, vou tocando histórias que me marcam.Muitas delas, para além da minha própria,fazem-me crescer, chocam-me, fazem-me pensar e por fim, ajudam-me a Amar ainda mais.
Hoje, quando fui ver o meu pai, deparei-me com um rapaz novo, na cama ao lado.Tinha chegado hoje.
Como sempre, disse boa tarde, abracei o meu Pai, perguntei como se sentia hoje, dei-lhe o miminho que sempre levo, mas que nem sempre pode comer.
Depois de estar ali um bocado, reparei nas mãos daquele jovem, delicadas, frágeis e pálidas.Tinha umas 6 pessoas á sua volta, o que achei demasiado.Mas vi que ele estava tão feliz...o mesmo não senti de quem o acompanhava.Ele olhava para mim de vez em quando.Havia uma luz á sua volta que não sei explicar.A tarde passou, veio o jantar, as visitas foram como sempre embora e eu fiquei.Porque fico sempre mais um bocadinho e porque conheço os cantos á casa e já não incomodo, faço antes parte da mobília, médicos, enfermeiros e auxiliares, já se habituaram a ver-me por ali.
Após, o jantar, uma equipa veio e retirou o Jovem, (que soube então chamar-se R.), para um quarto sozinho.Fiquei com pena, pois estávamos a falar há um bocado e podia perceber nele uma boa energia, uma doçura no olhar, uma paz, uma calma, que não é normal em quem está doente num hospital.Normalmente, há preocupação, cansaço de estar ali parado...ou mesmo distância e tristeza no semblante.Mas ele não.Sorria enquanto falava, no seu rosto de traços finos e delicados, abatidos no entanto.
Parecia abarcar em si, os sonhos mais bonitos para o futuro.
Quando ele saiu, a mãe que ficou com ele, enquanto arrumava as coisas,partilhou comigo que ele se encontra em fase terminal de uma Leucemia, por isso vai para um quarto isolado, para poder estar em paz com as suas visitas, que não têm limite de numero.
Tem 25 anos e um olhar e sorriso de meter inveja a muita gente saudável.Fiquei estarrecida, na cadeira a olhar para o meu pai que respirou fundo e fechou os olhos.Eu sei o que ele quis dizer com aquele respirar.Pensou como eu, QUE INJUSTO.Mais um.Sem retorno.
Porquê?
E fez-se silêncio.
Fiquei a pensar, naquele rosto bonito e meigo.Não podia ficar ali.Fui ao corredor, e procurei o quarto de isolamento, vi-o de longe, sozinho a ler uma resvista.Tomei a liberdade de perguntar se podia entrar e ele sorriu quando me viu.Sentou-se melhor na cama, como que antecedendo um diálogo, que queria ter.E foi isso que aconteceu.Uma partilha muito bonita e macia.Compreendo em parte o que sente.E ele sentiu-se compreendido.Rimos, tivemos em silêncio, falámos de coisas banais e de coisas bem sérias como a vida e a morte.Ele é feliz.Foi ele que o disse.
Posso dizer que aqueles 30 minutos, passaram e eu não dei por isso.Foi das conversas mais belas, fortes e profundas que já tive.
É impossivel, para mim, não me ligar ás pessoas desta forma, mesmo que não as conheça de lado nenhum.É mais forte do que eu, querer ajudar, como posso, quem se despede desta vida que eu tanto Amo.E agora que tenho um pai nessa condição, dou ainda mais valor a este momento que não deixa de ser especial, (e eu sei porque digo isto), é o momento em que nos apuramos mais, segundo o R.
O R. agradeceu-me a coragem e pediu-me para voltar sempre que queira, porque o ajudava a ordenar ideias, amanhã, ou depois, ou enquanto ele lá estiver.
Sei, que um dia pode não estar.E que pena ser assim, pois seria uma bela amizade.Eu nunca me vou esquecer do R.
Mas amanhã, levo-lhe uma flor.




(...E outra para o meu Pai.)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Pai.








Nos últimos tempos, não tenho escrito sobre o meu Pai.
Talvez numa tentativa de o resguardar, de olhares mais alheios e ao seu sofrimento.
Mas, este blog, sempre foi um livro aberto, onde corro o risco de me expor, verdadeiramente.
E na vida, tenho para comigo, que só quem arrisca, consegue viver intensamente.

Hoje, estive com o meu pai largas horas.O que é raro, durante a semana, já ao fim de semana é mais comum.
Mas hoje, devido a uma troca de horário,consegui.
Pelo corredor do hospital ia eu e pensava no Pai do meu melhor amigo, que também se debate com o fim da sua vida, no mesmo hospital.Acabo de pensar nele, e olho para um dos quartos, e lá estava ele, sentado na beira da cama a ler o Jornal.Supreendente, estar no mesmo piso que o me pai.
Aproximei-me e estivemos cerca de meia hora á conversa.Levei uma lição, de alguém que sabe que lhe resta pouco tempo, de alguém que apesar disso, fala com esperança e um sorriso.Aceita simplesmente o seu destino, sem revolta, sem mágoa.Um exemplo.Recordámos muitas coisas, como as férias que fui com eles para o Gerês.Rimos.
Deixei-o e fui ter com o meu pai.Entrei no quarto a sorrir, e não o vi sorrir.Estranhei.
Abracei-o.E o seu rosto não deixa margem para dúvidas.O cansaço, a saturação de uma luta que sabe á partida que vai perder, é visivel.Ele pede paz.Ele não aguentará muito mais.A magreza aumenta, a cor pálida também.Mostrou-me os braços secos e disse que estava desidratado.Fui buscar creme e estive a massajar os braços.Mas isso não esconde, que aquele esqueleto, é o que resta de um gigante que um dia me carregou ao colo, me fez rir como ninguém, me ensinou a alegria e me fez sonhar muitas vezes, como criança que ainda é.
Por mais que tentasse, hoje ele estava em baixo e triste, consciente do seu estado.Esteve a oxigénio estes dias, no SO.Um serviço, confuso, onde as luzes nunca se apagam, mesmo de noite.Descansar ali é mentira.As camas acomulam-se nos corredores.E o barulho não pára a qualquer hora.Finalmente passou para uma enfermaria.Mais calma.
Hoje o meu pai, confundiu o meu primo ao telefone, com outra pessoa.Senti-o confuso.
Só depois do jantar, me vim embora, para me certeficar que comia a sopa, o peixe a que retirei as espinhas e a fruta.Come pouco.Muito, muito pouco.
Quando olhava para ele, sentia a sua exaustão.Para ajudar, a cama ao lado, tinha 4 visitas, quando podem entrar 2 apenas.Falavam alto, atendiam telemóveis.Uma feira.Um hospital é um lugar de repouso!

Doentes como o meu pai, deviam ter um fim calmo, num local calmo.Se pudesse leváva-o para uma grande janela, em frente ao mar.Para poder olhar, com espaço.Ou melhor ainda, para uma planície alentejana, num monte, que ele tanto Ama.E ali, o vento ia ondear os campos e ele ia sorrir.
Mas não sei, quando, nem como, será a sua partida?Sei que queria estar ao lado dele.
E o meu medo, está aí.Somente.Não conseguir chegar a tempo.
Quando me despedi, disse-me ainda: "Não te preocupes, que eu estou e fico bem".
Mas eu sei que não.Sei que as dores são muitas e que ele nem sempre se queixa.Sei que pensa no futuro e não sabe como eu acredito que será risonho.Eu confio sempre.

Hoje vou dormir assim, com o coração pequenino e um turbilhão de sentimentos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Era um dia de sol...




...que me chamou para a rua.Tu vieste comigo.
Sentados de frente para essa estrela que nos aquece...viajámos por todos os locais onde andámos.
Um mês de distância, traz consigo, muitas coisas para contar...aventuras, peripécias, sentimentos e o cenário de hoje,era perfeito.Um rio calmo, um sol que brilhou intenso e se pôs, vermelho.
A agitação e o vai e vém das pessoas que caminhavam lentamente, viradas para o sol...misturava-se com o lançar da cana, dos pescadores que estavam por ali.De vez em quando, saltava no ar, algo prateado que se movia frenéticamente, peixes minúsculos, mas que são o pretexto para um pedaço de paz em frente ao rio.
Não importa se levam ou não o balde cheio no fim, se os vão comer, importa sim a paz.Parar.Absorver.Observar.E a esperança de lançar uma e outra vez aquela cana ao rio.

Com o sol posto, refugiámo-nos para uma bebida quente e os sabores de Belém.

O caminho, sem saber bem como, conduziu-nos a "casa".
Aquela que é sempre a casa de quem lá entrar.
Numa outra viagem, pela história de alguém, voltámos a entrar e a perceber como se dá o milagre da vida, o milagre que só nós podemos permitir que aconteça.E de como tudo é bem melhor, na luz.

Rostos, partilhas, saudades que tinha de alguns.A união, faz a força.
Amanhã partem para os Pirinéus, vidas, ao encontro de outras vidas.A tentação de partir é sempre grande, mas a minha comunidade tal como o meu Haiti,neste momento, chama-se PAI.
Um dia eu irei.

Volto a casa, com este sol ainda dentro de mim.
Ainda a cheirar a porto...e a rio.
Obrigado Duarte, P.Álvaro, anónimos que por mim passaram e compuseram esta tela.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Já não me lembrava de um sol assim...desde...









O dia acordou(-me) assim!
Cheio de sol!
Ontem pedi um céu cheio de estrelas, e hoje brilha a estrela rei.
Estou cheia de vontade de sair e ir apanhar esta luz.
Bom Domingo.
Céu.






Hoje, queria um céu assim, repleto de luzinhas, que brilhassem só para mim...sem nuvens.Sem chuva.Como os muitos que comtemplei por mil aventuras vividas.
Ás vezes até passavam estrelas cadentes e eu achava que era um sinal.E era.

Vou dormir...e que bom, amanhã ainda é Domingo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Imagens soltas de Poznan


Porque entre partir e ficar, eu hei-de escolher sempre partir.

Ayo-Only you

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


 Haiti









Todos os dias,quando chego a casa, fico colada ao sofá, dormente, enquanto as imagens do Haiti, me entram pela vida dentro, assim...e eu ali.Já me emocionei várias vezes.Já senti vontade de ir para lá, embora saiba que devo deixar neste momento esse papel, para os que estão preparados para o fazer.
Trata-se de reconstruir, de pacificar, de salvar.







 


O haiti, vai precisar de ajuda durante muito tempo, e sempre precisou.Dos mais pobres do mundo, este país, foi abanado desta forma.E com ele, todo o mundo abanou.Pelo menos as consciências.
No meio de tanta destruição e gigantesco sofrimento,há algo que não posso deixar de olhar,porque me toca, o mundo ainda se sabe e consegue unir, perante uma catástrofe...e de todos os países, chega ajuda.Cada um com os meios que tem, acorreu ao local, para salvar vidas humanas, que já não tinham muito e agora ficam sem nada, restando-lhes apenas a esperança de uma amanhã melhor.
Penso muitas vezes no Haiti, e talvez um dia o meu caminho passe por ali, para dar a minha mão, nessa reconstrução que tanto se anseia.Onde essa mão é precisa e não desperdiçada.
Por agora rezo.
O nosso caminho passa, por onde nós quisermos e sentirmos que seremos úteis.



É triste afirmar, mas é a verdade; se nada for feito para dar a este povo uma chance de sobrevivência com o mínimo de dignidade, esta tragédia natural será em breve considerada como leve e de pouco efeito e com certeza isso vai-se reflectir em várias nações.
E nós não seremos excepção.
Porque quando uma borboleta bate as asas aqui, há um terramoto no outro lado do mundo.Nada nos exclui de nada.Mesmo que continuemos a ter todos os dias o que comer, onde dormir, e o que vestir, conforto, caprichos... e o Haiti, seja apenas as imagens da Tv, que não deixam passar o cheiro a morte, isto ainda e sempre nos afectará.