sexta-feira, 5 de junho de 2009

Chuva


Eu sempre gostei de em determinados momentos, andar á chuva...molhar-me.
Como isso me faz sentir livre e me lava a alma.
A água da chuva vem de longe, vem do céu e eu gosto de acreditar que mais do que tornar o dia cinzento e chato, esta água é vida...e nos coloca o mundo a brilhar.
Ping ping sem parar...mágico e de encantar.
Ouçam...



Eu não tenho que ser, nem por um dia, politicamente correcta.

1.Não é por ter 3ºs na visita com o meu pai, que vou parar de lhe fazer o que faço todos os dias.
São rotinas, que o deixam bem melhor ao fim de um dia na cama.Não entendo que tenha que parar...para dar atenção a uns minutos de visita que decidiram fazer.E por isso continuo a massajar as pernas e a cortar o bigode, e a cirandar em torno da cama, pedindo a quem se instalou que o permita e ainda perceber que se sentem incomodados.
Haja paciência!


2.Também não me parece bem, que alguém me convide para tomar café, para estar comigo e depois desista uns minutos antes porque se aborreceu e fez birra...amuou, com palavras que ouviu que não caíram bem.É um direito é certo, e cada pessoa é uma pessoa, mas é algo que a amizade supera...se ela existe!
Não tenho paciência para birras,adultas.Apenas de crianças...essas curo-as bem.
Estou um pouco farta de ver gente chatear-se por razões mesquinhas, quando a vida são dois dias e de um momento para o outro, lá caímos por exemplo no meio do oceano, dentro de um avião ou ficamos presos numa cama de hospital.
E aí, vale a pena continuar a chatearmo-nos e a amuar?
Não percamos tempo de vida...horas de felicidade.

3.Já que estou numa de reclamações, não acho bem, que coloquem autocarros gratuitos e frequentes, para os centros comerciais e para o hospital, um serviço público e necessário, passem de hora a hora, falhem por vezes e se pague o balúrdio que é, apenas para percorrer dentro da mesma cidade um percurso até curto, mas perigoso aos peões.
Ora, pessoas que fazem tratamentos e se deslocam lá todos os dias enfraquecidas, idosos, mães com bebes, precisam de mais apoios...visitas aos doentes, etc...estas pessoas sim, precisam de um autocarro gratuito.
Deixem-se lá de autocarros para os centros comerciais...afinal a crise existe mesmo?Eles não param de crescer...


E muito mais teria para dizer, hoje, mas já é tarde...e isto não vai mudar grande coisa.
Apenas me vai aliviar.
O que já é bom.





Grrrrrr.....aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh


quarta-feira, 3 de junho de 2009


Pai











Os dias deixam-me rodeada de amigos, com quem vou absorvendo a realidade externa a toda esta minha realidade interna.
Voltinha aqui, cafézinho acolá, chá aqui em casa, conversa pela noite dentro enquanto se conduz,(Obrigado Paulo), vai-se dizendo sem nos apercebermos o quanto de bom nos habita e nos faz recear, ou o que nos encoraja a seguir caminho.
E assim, vou rebentando a bolha onde ás vezes me vejo a flutuar, dormente.
Sobre o meu pai...hoje.
Que posso dizer mais?
Febre,desidratado,a infecção não cede nem por nada...mas bem disposto, apesar de tudo.
O mesmo ritual,massagem nas pernas e no braço, jantar,o mimo de um queque de maçã e lavar os dentes, adormecer, venho embora, mais reconfortada, por ter estado presente nesta rotina, com todo o meu amor.
Mas sobretudo por olhar para ele do mais profundo que sou, para o mais profundo que ele é.Em silêncio.
Ainda e sempre.



Daqui nada o sol vai voltar ao seu lugar, aqui, e é um novo dia que começa.

Até já.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pai
















Os últimos dias, o meu pai tem estado com imensa instabilidade, a nível gástrico.
Cansado,leva ferro e transfusões.
Depois de um fim de semana agitado, onde recebeu muitas visitas, incluindo a do Deodato, que só ficou feliz, quando se viu sentado ao lado do pai da "Ita" a falar para ele.
O meu pai riu muito, e ver o sorriso dele...vale tanto, em dias como estes.E foi bom para os dois, que criaram uma amizade bonita.
Hoje, cheguei á visita e vi a cama vazia.O meu coração parou, congelou e o senhor da cama do lado, disse-me que tinha mudado de quarto.Imediatamente fui ter com a enfermeira e perguntei porque tinha mudado de quarto.
A verdade é o que eu receava, piorou.
O quarto mesmo em frente ao gabinete de enfermagem e dos médicos.Onde a observação é feita mais de perto.A infecção não cedeu ainda.
Curiosamente, ele pareceu-me muito melhor de ânimo, falava muito,ria-se, metia-se com as auxiliares e chegou a parecer-me que roçava ali o delírio, mas não quis dizer nada.
Hoje embicou, que havia de comer umas sementes que há em Santarém, que ele chama de chicharros.Se alguém souber o que é, por favor contacte-me pois ele fala nisso desesperadamente, com desejo.Vi-me mesmo forçada a ligar para a Catarrrina, que está em Santarém, para ver se arranja e traz os ditos Chicharros.Olha pus os dois ao telefone, foi uma animação.Naquele serviço, toda a gente já se ria, com o meu pai, que até de olhos fechados, falava nos chicharros com azeite e vinagre.
Bom, hoje pediu-me para lhe fazer a barba, assim fiz.Também uma massagem nas pernas, paradas na cama, e no braço mais preso.Fica sempre tão bem, depois disto, bonito e bem cheiroso.O jantar chegou e era peixe, comeu apenas a sopa e a pêra cozida, ainda bem que lhe levei um bolo de arroz...para compensar.
Depois lavar os dentes...com muita calma.Tarefa complicada para quem está na cama, mas possível.Acabo por entrar e sair,pedir luvas e recipientes, toalhas e resguardos, mas isto é o pouco que ainda posso fazer por ele.
Depois deixei-me ficar ali sentada, a conversar com o meu pai, a ver as notícias, enquanto o dia começava a cair lá fora e o ar fresco entrava pela janela.
Ouvia-se falar do avião da Air France que caiu.Tanta gente que perdeu a vida, assim, de um momento para o outro.Isto faz-me pensar, que para morrer, não é preciso muito...e isso faz-me dar ainda mais valor aquele momento, ali ao lado dele.
A hora de vir embora é a que custa mais.Pudesse eu nunca o deixar para trás, ali, pudesse eu pegar na sua mão e caminhar com ele, outra vez, pudesse eu tirar-lhe todas as dores.
Mas posso fazê-lo sentir-se amado.
E só isso, já valeu a pena.





Até amanhã, Pai.

Paper Doll


Paper Doll - Rosie Thomas

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Hoje...













Feliz dia da Criança

Não percam nunca, aquela que vos habita!


=)






O mundo ao contrário?








Não sei se é de repente estarem trinta e tal graus sem eu ter percebido como. Não sei se são as ervas já torradas, secas a perderem o verde, interrompidas apenas pelas sombras tímidas das árvores à beira da estrada. Não sei se é por ter o peito quase a rebentar de coisas que não consigo dizer.
Os meus olhos um dia rebentam com este querer tão bem, os meus olhos um dia param de conter as lágrimas e é um oceano que aí vem, um oceano de ternura, de sonhos noutros olhos, um oceano cujo tamanho me ocupa toda por dentro.

As minhas mãos um dia não param, procuram a alma das coisas em intervalos cada vez mais curtos, as minhas mãos um dia falam e serão elas a entregar a mensagem, serão elas a oferecer o absoluto. As minhas mãos não me traem como me traem os lábios, que querem falar, querem gritar isto que sinto.

Dos meus lábios escapa a certeza a consumir-me sempre que se faz silêncio, escapa a realidade que acredito não merecer. E quando olho para trás, quando penso em mim há cinco anos atrás,antes de tudo, é como se eu tivesse sido toda uma outra pessoa, vazia de sentido, gravitando em volta de uma ideia remendada da felicidade.

Não sei se é desta tempestade de sentimentos, não sei se tudo acontece porque voltei a acreditar, mas também a aceitar a realidade dura do momento.

Mas esta calma,força e esta tranquilidade natural tem o seu preço.

Quando dei por mim, estava a chorar agarrada á almofada ou a empurrar os soluços para baixo em frente ao computador. Esta grandeza toda, do que tenho vivido, dá-me nós na garganta, baralha-me o discurso e faz-me estar deitada no escuro, simplesmente a sorrir ou a chorar com aquilo que me vai acontecendo.
Mas sempre a confiar.

Já não são só receios ou alegrias simples, são as centelhas que me escapam dos olhos por Deus me fazer assim feliz e abençoada, ainda que pelo sofrimento.
E sinto que está cada vez mais perto a minha entrega.


domingo, 31 de maio de 2009

Gnoma.





Porque há amores perfeitos!




















































Porque contigo os espaços ganham novos fôlegos e os passos também.
Porque conheces as minhas misérias e também os meus dons e cores como poucos neste mundo.
A tua presença traz sempre encanto e uma força que renasce sempre cada vez mais forte.
Sentamo-nos debaixo de uma árvore, e a sua sombra é tão poderosa como um raio de sol.
As palavras fluem, os sorrisos e olhares são por si palavras não proferidas, mas inscritas na alma para sempre, que se lêem tão bem.
Ontem, o dia foi para relembrar e voltar á presença uma da outra...para constatar a realidade dura e olhar para o futuro com confiança.Fazia tempo que não nos víamos.Mas nada mudou.Há coisas que nunca mudam.O mundo gira e gira apesar disso.
O teu abraço foi vida.
O teu olhar, vê,muito além do que quase todos vêem.
Cozinhar juntas, desesperar juntas, chorar juntas mas sobretudo rir, rir muito como nós não conseguimos não o fazer.É mais forte.
Tantos,locais, pessoas, aventuras...mas os anos não parecem passar por nós.
A alegria é a mesma, e o mundo espera sempre por nós, com uma bagageira cheia de tralha e estrada a não ter fim, todas as direcções serve bem para nós!ahahahha.
Como foi bom ver o sorriso do meu pai, quando te viu...depois de te esconderes atrás de mim.
Só por aquele sorriso valeu a pena, tudo.
Não esqueço as tuas lágrimas, quando te despediste dele, e ele te disse que sim que voltaria a cozinhar aqueles pratos para nós...como só ele sabe.Porque lhes punha amor.E isso muda o sabor das coisas.Relembro as manhãs preguiçosas no meu quarto, e a ida para a mesa em pijama e sem lavar a cara...eras e serás sempre da casa.
Agora já o dia te leva a caminho do Porto e eu volto a ficar em Lisboa, até ao dia em que me meto no comboio e vou ao teu encontro...assim que esta luta terminar e eu puder respirar fundo.
Porque há pessoas eternas e amores perfeitos também.



sexta-feira, 29 de maio de 2009




O meu coração...












"Eu adoro todas as coisas.
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite."



Álvaro de Campos












E isso é bom, mas também pode ser mau.

Não?

Metáfora bonita, esta do albergue...mas pena algumas portas custarem tanto a abrir, enferrujaram com o tempo...nada que não se resolva.

Afinal é neste coração albergue que nasce a fantasia.

E amanhã por aí a baixo vem a minha gnoma, a Clarinha.
Que saudades.
Vai ser muita conversa e muito sol...a amenizar a minha dor.
Até já!




Pai,pai,pai,pai,pai...

















A minha ida ao Hospital hoje foi uma aventura.Primeiro para chegar,depois para entrar e no fim como tive de sair.

Cheguei tarde.Mas mesmo assim fui, sabendo que corria o risco de não o ver.Não me queriam deixar entrar, eram 19h35, por 5 min.Olhei para o segurança muito séria e disse, olhe faça como quiser, mas eu vou entrar de qualquer maneira.



Ele deixou.Acho que o intimidei não sei como?Talvez por saber que nada neste mundo me pode impedir de estar com o meu pai, no estado em que ele está.Sei que regras são regras, mas hoje mandei-as á fava.A vida fala mais alto do que tudo isso,ou não?



Subi, ia com o coração apertado, porque ontem ele não estava muito bem.Quando me abeirei da porta do quarto, encontrei o meu pai, prostrado, os olhos fechados, com ferro a correr para a veia, e muitos sacos a sair da barriga.Abriu os olhos, mal falou, sentei-me depois do beijo de sempre, pelo qual espero, o dia inteiro.Hoje custou vê-lo assim, hoje fez dor ao olhar.



Sei que não dormiu bem, estava com os olhos inchados e ar exausto.Daí a 30 min, ia fazer uma transfusão de sangue, para ganhar forças.



Hoje, pelo que me disse, recusou fazer fisioterapia porque não tinha forças.



Já tinha jantado pouco, foi a auxiliar que lhe deu o jantar.Depois, deixei-o dormir, descansar, e permaneci ali mais 10 min, de mão dada com ele, a olhar para ele e a sentir, que cada vez o vejo pior...mais fraco, mais longe da vida, do mundo.

Mas não de mim.



Sei que de uma forma ou de outra, estamos e estaremos juntos, numa ligação bela que nunca ninguém poderá romper, afinal, pai é pai.



E um pai como este...





(Acabei por ter que descer, mais cedo, porque o senhor da cama do lado, pediu para entregar um cheque á filha que estava no átrio, pois não pode subir, e eu como nunca deixo de ajudar e vi a aflição deles, já não me deixaram subir de novo...)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A vida também é feita de partidas... e ausências.








(Eu, no passado...)






Recebi um email hoje, a relembrar que...

Faz hoje,anos que um acidente de mota te tirou a vida.


Colega de turma, amigo, uma das primeiras paixões e de quem não nos esquecemos.


Não tenho nenhuma fotografia tua, apenas minha desse tempo.


Para o Nuno, onde quer que esteja.







Eu tinha uma mochila da Monte Campo e um casaco Encarnado. Usava o cabelo muito comprido e encaracolado, preso com dois ganchos e esperava na entrada da escola para te ver chegar.

Tu vinhas de Vespa, preta como o teu capacete. Guardava sempre o meu melhor sorriso para quando tiravas esse capacete e, sacudindo o teu cabelo louro, olhavas para mim. Sabias que eu estava ali mesmo antes de parares, e vinhas sempre dizer-me olá. Sabias também que eu o esperava.

Às vezes ia assistir aos treinos da equipa de volley da escola com alguma amiga e fingia que olhava para os outros rapazes mais velhos. Um dia a bola foi parar perto de mim e quando a foste buscar disseste-me "sei que é a mim que vens ver, porque não mo dizes?".A resposta foi uma careta a desdenhar a tua afirmação, e o rubor a surgir na minha face. "Não ligo a miúdos", disse, e tu piscaste-me o olho e sorriste, antes de voltar para o treino.

Cadernos pautados, livros e folhas quadriculadas faziam parte dos meus dias.Calças á boca de sino,sonhos e as fugas aos almoços horríveis na cantina da escola.As tardes de estudo, todos juntos na biblioteca, e os lanches de panikes, cheios de gordura e chocolate.Os Torneios de cartas nos intervalos das aulas adiados por conversas e brincadeiras.

Um dia Ficámos no mesmo grupo, para um trabalho de Português, o que provocou primeiro o teu riso mas depois uma surpresa com a qual eu não contava. A composição que tinha sido pedida era difícil e eu queria contar com a tua ajuda, além da tua companhia. E como me ajudou o teu sorriso, como me inspirou a tua pele morena, o teu fresco odor adolescente. Quando me beijaste perguntaste-me ao ouvido se eu já ligava a miúdos, e rimos ambos, um riso que por vezes ouço, um ricochete de felicidade nas paredes intemporais da vida adolescente.
Não sabia nessa altura que a primavera dura apenas um segundo.
Mostrei-te o trabalho final antes de o entregar, afinal tinha-o escrito por e para ti. Eu sabia que estava bom, mas o meu entusiasmo só apareceu depois de ver o teu. Não queria ter uma boa nota, nem queria louvores da professora, queria apenas contar-te a história mais bonita do mundo. Disseste-me que não deixasse de escrever nunca,porque escrevia bem.


Se tu soubesses, ainda hoje faço dançar a tinta negra de uma caneta, que desenha no papel formas do alfabeto e nessa dança aparecem as palavras que já lá estavam antes da tinta as revelar. Ainda hoje abro um ficheiro de Word e primo as teclas que comandam o aparecimento de caracteres nos cristais líquidos do écran. Ainda hoje, tanto tempo depois de teres desaparecido.

E sempre que o faço lembro-me das palavras que disseste nessa tarde antiga, lembro-me que um dia te quis contar a história mais bonita do mundo.


Um beijo cheio de saudades...


Pai







Não trago boas noticias.
Saí do trabalho, e passei na pastelaria, comprei uns pastéis de nata, quentinhos, ia feliz só de imaginar a cara dele ao comer um.
Entrei no quarto e encontrei o meu pai, com um ar esgotado...quase a dormir.
Suavemente, sentei-me ao seu lado e ele deu logo pela minha presença.E então pude dar-lhe um beijo.Perguntei como se sentia hoje, disse-me que não muito bem.Com dores.E a sua expressão mostrava isso mesmo.Ele está a tomar ferro, e isso provoca alguma paragem no trânsito intestinal, o que não permitiu que pudesse jantar.Reparei pelo saco transparente que a quantidade de pus na urina aumentou novamente.Mesmo com todos os antibióticos...
Um dia andamos um passo para a frente e outro recuamos.Ou não soubesse eu que é assim...
Mas custa.Ainda pediu uma massagem nas pernas e ginástica, tinha os pés inchados.Hoje com os fisioterapeutas conseguiu sentar-se algumas horas no cadeirão ao lado da cama, mas isso cansou-o muito, porque não tem força.Mas a intenção é boa, é que não fique parado sempre na mesma cama.
Enquanto me contava isto,consegui que comesse a laranja, algumas cerejas, e um pastel de nata.No fim água e este foi o seu jantar.
O coelho á caçador ficou no prato...a olhar para ele.
Reparei que estava adormecido e por isso a visita não durou muito hoje, foi ele que pediu para descansar.E assim fiz.
Vim embora.
Desejosa de chegar a casa como todos estes dias, onde me sinto sempre protegida e onde repouso de um dia cheio e das idas ao Hospital.
Tudo isto também desgasta...o corpo.O coração, esse, vai-se aguentando bem.~
Um banho, uma música que gosto, jantar e depois sento-me aqui com aquela sensação de dever cumprido e respirando calma,preparo-me para contar ao mundo, esta minha e esta nossa história.Da Rita e do seu Pai.
E como me alivia fazê-lo.
Até amanhã.



quarta-feira, 27 de maio de 2009


Pai, hoje sento-me contigo na Lua...




Cansada e pronta para aterrar num sono bom e profundo.No céu uma lua brilhante e fina, onde me sento hoje, bem alto para te ver dormir, Pai.
Os dias, correm e eu só penso na hora de chegar ao Hospital, e estar com o meu Pai mais um pouco.Ontem não consegui entrar, mas hoje eram 19h estava a chegar.E tudo porque um senhor caridoso, forçou a porta do comboio para eu entrar...ou tinha-o perdido e chegado muito mais tarde.
Assim que cheguei, foi fazer a Barba pois o jantar estava a chegar.Foi uma aventura, apenas com um copo de plástico e água quente...e espuma por todo o lado.
Ficou outro...outra cara, outra disposição.Ajuda muito, quando se está doente, que nos arranjemos e sintamos bem.
Estava o meu primo de Sesimbra, que lhe fez imensa ginástica ás pernas...pois ele está sempre na cama.Ele saiu e eu fiquei.
Depois foi dar-lhe o jantar e ficar na conversa com ele, mais uma massagem no braço, outra coisa aqui e ali...tudo, mas mesmo tudo para que fique bem.
Sentei-me por fim e deitei a cabeça na beira da cama, estava cansada e hoje estou muito.Estivemos a falar sobre tantas coisas, ora ele se emocionava, ora se ria...anda assim com picos, talvez não seja o único...
Deixei-o com um abraço longo e beijinhos na testa.
Lá fora o sol punha-se de forma bonita, e não hesitei em ir admirá-lo antes de entrar no elevador para regressar a casa...ali do 6º piso a vista é melhor, via os carros apressados na Ic 19, via as pessoas que deixavam o átrio do hospital...imaginava quantas vidas ali dentro a sofrer, outras a nascer...um mundo ali.O meu pai, ali.Eu, ali.
Pelas ruas da minha cidade, desertas, hora do lusco fusco, subia eu no meu passo calmo, tudo a recolher.E eu ali, caminhava na minha solidão de fim de dia, enquanto espreitava as janelas abertas das casas, onde uma e outra família, comia reunida á mesa...e isso fez-me pensar na minha família.Muito.
Eram 21h30 estava a entrar em casa, exausta.Corri para o banho e jantei.O computador não ligava nem por nada e por momentos pensei estar bem arranjada com isto, mas depois de muito tentar ás 22h30, ligou-se!
Na janela, vejo uma lua, fina e brilhante que me chama, e eu subo até ela, sento-me lá, contigo, Pai.Vamos ver o mundo esta noite...olha tantas luzinhas lá em baixo.
Boa noite.

I don't know...



I Don't Know from ATO Records on Vimeo

Palavras que guardei.












Acerca de um dia que já passou, em que choveu...e em que as palavras ficaram guardadas,num caderno de mala, mas não podem mais esperar.



Sejam elas livres...e gritem de si.





Os dias escuros abatem-se sobre esta cidade ás vezes, o dia na sua luz que resta é apenas a que, a espaços, surge entre os prédios. Com o entardecer, pouco a pouco, a chuva miudinha transforma-se em noite. Penso em ti, mas não estou contigo. Penso em ti e estou com outra pessoa, mas na minha mente és tu quem aparece, saído da prateada chuva vespertina, e sinto-te tão perto que consigo cheirar o teu perfume.


De quem é o corpo que toco? De quem é a respiração que ouço tão perto do meu ouvido? E este corpo procura-me, fala-me, pede-me que o tome e esqueça tudo o que está fora desta sala, que deixe que o passado caia no esquecimento de um beijo.


E então compreendo que a distância é um conceito que não é compreensível para mim. Sinto-te tão perto e estás tão longe, tenho-o aqui e sinto-o a mil milhas de mim. A vida expande-se silenciosamente para além das grandes janelas molhadas, e as leis da física não são mais do que enunciados teóricos diluídos nas gotas destas janelas. Gotas que passeiam a grande velocidade nos vidros, e desagregam em tons e formas o sorriso que vejo à minha frente e os braços que me cingem para criar o som de outro riso e a luz de outro olhar.


Observo o semblante que tenho diante de mim, e ouço as tuas palavras entrecortadas que me sussurram ainda, hoje só há duas coisas no mundo para mim, tu e a chuva. Não respondo e fecho os olhos, porque não sei mais o que fazer ou dizer.

A chuva impetuosa cai cada vez mais forte, como se acometesse por todas as partes, anulando todas as distâncias, e imagino os nossos corações tocando-se, nós sob um chapéu de chuva que mal nos protege da intempérie,ou mesmo á chuva saltando as poças de água numa rua qualquer. Saio para a rua e penso que só a chuva pode levar consigo o que trouxe, e só me resta esperar por dias de sol em que saiba aproveitar o que tenho ao alcance das minhas mãos.

As luzes dos candeeiros já se acendem e caminho sob a chuva crepuscular, cai a noite e apesar da escuridão e do frio este é para mim um doce entardecer, pois transformou-se na perfeição da tua lembrança.




Escrito no miradouro da Polux em Lisboa...

terça-feira, 26 de maio de 2009



Esta luz pequenina, vou deixá-la brilhar...












Atrasos e mais atrasos, comboios perdidos, passos lentos, os meus.Como ás vezes sinto saudades de andar depressa e correr.


Acabei por chegar ao hospital ás 19h40, e já não me deixaram subir.
A partir das 19h30, ninguém sobe...E por mais que implorasse, não recebi um sim.


Hoje, não vi o meu pai.Hoje ia fazer-lhe a barba.Não fiz.


Hoje durmo com o coração mais apertado.E sei que ele também.


Mas pelo que disse a minha mãe, ele está na mesma.Calmo.


Mas os meus olhos vêm coisas que a minha mãe não vê...e vêlo é sempre diferente.


Amanhã, vamos ver se consigo, esta semana a sair ás 18h, termina na sexta.
Se lá chegar, faço uma festa...


Agora, com a vossa licença, que vou a um banho, que já estou a precisar, depois jantar e sossegar.


Aqui no meu cantinho, onde me sinto tão segura...

Olhando atrás












Em algum momento conhecemos as pessoas que nos marcam para sempre, e quando sabemos que as vamos perder é como se gravássemos na memória o máximo de informação possível, para que nunca desapareçam verdadeiramente.


Depois vieram os copos, os brindes, as canções, as mentiras que dissemos entre todos... porque nestas ocasiões os amigos mentem acreditando que dizem a verdade. Com cada adeus a sensação é a mesma, passam meses e anos, e as noites são como poços de esperança de encontrar quem já passou, e as tardes nada mais que caminhos cheios de ausências.
Mas há que dormir nessas noites e caminhar nesses caminhos e encontrar a força nos abraços, e ter a certeza definitiva de que estivemos juntos alguma vez, cruzando esse mundo e sendo felizes.




Parallelostory



Parallelostory from impactist on Vimeo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Acordar











A claridade da luz na janela ofusca quase tudo, embora perceba pela claridade que hoje, não haverá sol.
É de manhã e o mundo parece tão pequeno como o reflexo de um lar.Do meu lar neste momento, mais vazio.
Na ardente atmosfera paira o último lume da noite anterior, como se a casa fosse impregnando na minha memória as reminiscências desse ainda fresco passado longínquo.
Esse brilho faz com que a manhã entre mais levemente, brinque com as sombras e cure a cegueira da escuridão.Um fio de luz vai semeando a esperança pelo meu quarto, ainda que dentro do meu coração a esperança pareça algo tão remoto, ela existe.
Vejo-me sentada na cama, como sempre faço depois de acordar, passando as mãos pela cara, despedindo o sereno sorriso que trouxe do sonho, sem memória da realidade, que chega agora.
Duas solidões ardem no lume que lentamente se esvanece.
Uma vem desde os recantos mais escuros do seu interior, pensa em alguém que está longe, no futuro que a cada dia se transforma num passado diferente do imaginado, as sombras de um fogo que se vai apagando na contraluz deste quarto. Outra que sonha com coisas que ama, e no horizonte teima em ver as "ilusões" que ainda virão.
Imagino este acordar em frente ao mar...e com sol.
Uma canção para despertar ou embalar é sussurrada a contraluz, a luz que se distingue na distância, tentando romper em vão a escuridão da noite imensa que passou.





Mais um dia, por ti.

(No alentejo, Outubro de 2008)








Hoje, saí de casa a correr, adormeci.


Fiquei sem bateria no telemóvel.


Não tive a hora de almoço completa.


Corri, para chegar a tempo á visita, pois para além de ter que fazer a barba ao meu pai, o Pe.Alberto ia estar com ele.


Cheguei em cima do jantar, que é as 19h, e por isso ele como estava a jantar, já não quis fazer a barba hoje, ficará para amanhã.Não gosto de o ver assim, mas sim com a cara limpa e bem tratada, não é por estar numa cama que vou deixar de o fazer.


Sei que hoje recebeu a visita da Ana Maria, uma amiga, que está a trabalhar no serviço, esteve a falar com ele e a animá-lo.Obrigado Ana.


Entre uma colher de sopa e outra que dava ao meu pai, reparei na enfermeira que ficou muito séria a olhar para mim, e eu para ele, era a Filipa, que foi comigo a Roma, no ano 2000, ficámos muito admiradas, por nos vermos ali, quando percebeu que era o meu pai, a sua expressão mudou, ela ia ficar esta noite com o meu pai.Assim que pode chamou-me á parte e estivemos a falar um bocadinho.Aquilo que lhe disse, ela confirmou.Que as coisas estão numa fase muito delicada, que o tumor não cede e pressiona a bexiga, o que vai acabar por rebentar por algum lado.As defesas são quase nulas, qualquer coisa lhe pode fazer mal.Adverteu-me ainda para o facto de quando ele começar a ficar agitado, sem saber o que diz, e onde está, coisas sem nexo, nos mentalizar-mos que chegou a hora.E disto eu não sabia.


Foi bom falar com ela, ainda que de lágrimas nos olhos, e com o coração apertadinho, eu ouvi tudo o que no fundo já sabia.Mas ouvir da boca de alguém que conhecemos, é diferente.É mais uma confirmação para aquilo que não se quer, não se deseja, mas vai inevitavelmente acontecer.


Tenho encontrado as pessoas certas, nas horas certas.


O Pe.Alberto, acabou por conseguir subir, mesmo depois das 19h30, e o meu pai quando o viu, ficou muito contente, e perguntou logo: " Trouxe aquilo?".


Aquilo, era a comunhão e a extrema Unção, que quis receber.Também se confessou.


Chorou.Fez-lhe bem e ficou em paz.


Que mais posso eu fazer por ti, Pai?Não quero pensar, no medo que te habita, sabendo tu que a tua vida, está perto do fim, que pensamentos e sentimentos isso provoca em ti.Mas sei bem que sentimentos provoca em mim.E se soubesses a dor que me acompanha, mas ao mesmo tempo uma força que não explico que me diz que nunca te vou perder.Deve ser muito doloroso, ver todos os que amas, á tua volta.Mas confia, que a tua hora será leve e sem dor.


Por isso tenho pedido a Deus, a todo o instante.


E que te acolha no seu reino agora e para sempre.


Por agora, deixo o teu sorriso, o teu apetite, e a tua boa energia...a partilhar com muitos.Pela vida fora.



Até amanhã.