domingo, 7 de setembro de 2008




Agosto 2008




Angola - Chinguar









Recém chegado de Angola, ainda com o coração lá...estive á conversa com o Jp, que partilhou comigo estas imagens...
Não há de facto palavras que descrevam uma experiência destas.
Quem lá esteve também, foi o nosso Cabrita, que ainda anda por terras Algarvias a descansar.
Eram 16, mas por agora, ficam as imagens da felicidade dos dois e de quem eles encontraram pelo caminho. =)











Uma ponte, que segundo ele, era segura.















Estes sorrisos...








Há alguma coisa que explique o brilho destes olhares?
A Alda...
As crianças são mesmo o melhor do mundo!














Os dotes de malabarista do Cabrita...eu sabia que iam encantar...















Descrição do Jp:" A árvore que dá crianças...!"










Alegria...







O Cabrita, nas suas aulas de Português!








Onde está o Jp??


Quase que adivinho o som desta imagem :" eeeeeeeeeeeeeehhhhhhhhhh"!

Obrigado pela partilha...o mundo precisa de corações destes, capazes de ir...e que bom estar rodeada por tantos.

Ainda que haja muito por contar, mas que só vou saber depois da viagem louca que o Jp vai fazer, sozinho, de mochila ás costas para a Républica Checa, confiando na sorte.E tudo porque sempre teve uma panca em lá ir.Não é que vai mesmo?

Ai quem me dera!

Talvez estes dias, sejam precisos depois de uma experiência como esta...cá te esperamos para te ouvir!

=)

sábado, 6 de setembro de 2008

A REALIDADE PARA LÁ DOS MUROS




Assumar (Monforte - Alentejo)




Centro de Recuperação de Menores de Assumar – Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus




O relato de alguém:




«A Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus foi fundada em 31 de Maio de 1881, em Ciempozuelos- Madrid (Espanha), sob o impulso de S. Bento Menni, Maria Josefa Récio e Maria Angústias Gimenez. A sua origem está vinculada à necessidade de responder a situações de carência assistencial, abandono e exclusão social de pessoas com perturbações psíquicas, especialmente senhoras.
Ao longo de mais de um século a presença da Congregação no mundo tem vindo a expandir-se, encontrando-se hoje presente em 25 países.
Em Portugal a Congregação está presente desde 1894, e realiza a sua missão em 12 estabelecimentos de saúde, dos quais 9 situam-se no Continente e 4 nas Ilhas Autónomas, nomeadamente 2 na Madeira e 2 nos Açores, tendo um total de 2790 camas de internamento. As áreas de intervenção são entre outras: psiquiatria, psicogeriatria, deficiência mental, psicopedagogia, dependências e reabilitação psicossocial.
Desde a sua fundação, a Congregação tem como um dos objectivos prioritários o de proporcionar às pessoas acolhidas nos seus estabelecimentos uma assistência e cuidados de saúde integrais. A sua missão desenvolve-se através da oferta de serviços de saúde para pessoas com perturbações mentais, deficientes físicos e psíquicos e, ocasionalmente, pessoas com outras patologias...»
Quem atravessa o Assumar (uma das Freguesias do Concelho de Monforte), em direcção a Arronches, ali junto à passagem de nível, depara-se com uma construção austera com mais de 60 anos, cercada por um imenso muro. Inicialmente esta construção destinou-se a centro de formação de capatazes/agricultores que tinham como destino as antigas colónias.
Depois de 16 anos encerrada, passou a funcionar ali o Centro de Recuperação de Menores de Assumar da Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Para lá dos seus muros há uma realidade que, muitas vezes, a sociedade procura ignorar.
Um conjunto de mais de cinquenta pessoas cujos braços,protegem cerca de 120 utentes, cujas idades oscilam entre os dois anos e meio e os mais de cinquenta.
Sob a batuta da irmã Fernanda Ramos, directora do Centro, coadjuvada por professores, assistente social, educadoras e demais pessoal auxiliar, decorrem os dias dedicados a uma profissão que se transcende numa quase devoção a esta causa tão nobre, cujo lema: Cuidar, Reabilitar, Promover, Humanizar… está patente no relacionamento carinhoso, por vezes até enternecedor como o que presenciámos.




















De toda a parte do país chegam crianças, adolescentes e senhoras para aqui ficarem internadas. Algumas como o último reduto de uma já longa “peregrinação” por outras instituições que as recusaram, paradigma de uma sociedade que, teimosamente, tenta ignorar estes seres dóceis que tiveram a fatalidade de serem diferentes dos demais.
Estas utentes estão distribuídas por sectores, tendo em conta o seu grau de deficiência que pode ser: deficiência severa, grande deficiência e deficiência menor.
Na imensidade das instalações, agora ampliadas, deparamo-nos com salas de refeições onde impera a higiene e o pormenor, aqui não se come em pratos de alumínio, mas sim nos de loiça normal e corrente como em qualquer casa de família. Os quartos alojam duas ou três internas, dispondo de roupeiros e casa de banho, a fazerem inveja a muitas residenciais ou, até mesmo hotéis. As salas de actividades são arejadas e nelas o pessoal desenvolve as terapias adequadas a cada grupo.
Numa outra sala fomos encontrar o Miguel, fisioterapeuta nascido em Monastério (Badajoz) que aqui exerce a sua profissão.
Para tudo isto funcionar normalmente, a instituição conta para além dos seus meios com a ajuda da Câmara Municipal de Monforte e várias entidades, dentro e fora do concelho, a Segurança Social e Fundos Sociais Europeus. Aliás, é o próprio Prof. Daniel Balbino que nos conta da sua presença com um grupo destas jovens em Estrasburgo, quando visitaram o Parlamento Europeu.
Muitas são as actividades que se desenvolvem com as internadas, tais como a dança, os passeios pedestres, excursões, a natação em piscina coberta e aquecida e a equitação, esta através de um protocolo com o Grupo Territorial de Portalegre da Guarda Nacional Republicana que para aqui faz deslocar alguns cavalos.
Há casos de sucesso que extravasam estes muros, como o da Manuela, a frequentar o 6º ano na Escola de Monforte e já com um livro de poemas editado no Ano Internacional da Pessoa Deficiente.
Tentámos como é dever do jornalista não nos emocionarmos com os factos presenciados, para que o relato fosse fidedigno. No entanto, não seríamos coerentes se não disséssemos que vivemos emoções fortes, como assistir ao trabalho do Miguel com uma criança na reabilitação, mas também experimentámos momentos de alegria, como o da pequena Liliana (aqui há duas semanas) nos braços da Professora Isilda Mourato, ou ainda com as danças que executaram para nós. Jamais esqueceremos a alegria estampada naqueles rostos quando viam as suas próprias fotografias… ou o vídeo que para elas fizemos.
Para terminar apenas deixo um pequeno excerto de uma carta escrita por uma mãe de uma destas meninas/mulheres, que sintetiza tudo o que nos foi dado observar: «… Porque aqui não há compaixão, há luta, há esperança, há persistência e há alegria e aceitação. Um pequeno progresso aqui é uma vitória suada… mas tão consoladora como as grandes vitórias…»






É lá que vou estar os próximos dias, para mais uma missão, a última deste verão, volto dia 15...com um coração certamente cheio de histórias para partilhar!


Depois disso, começa um outro caminho...em força!



Até breve...



GnOmA.















Ontem estivemos ao telefone, 1h.Passava das 00h...e eu depois de um café rápido, regressei a casa, fugindo da chuva!
E o tempo voa...quando o que se tem para dizer é tanto, é imenso.
É a velocidade do coração atropelando as palavras que querem sair, acompanhadas de gargalhadas, ou tons mais sérios.
Entre Lisboa e Porto, os Km, ainda são alguns e este verão, não tivemos o nosso tempo, aqueles dias em desaparecemos do mapa, e nos refugiamos por aí, com uma tenda, a banda sonora perfeita e pouco mais...em risadas que vão pela noite dentro, de situações e expressões inéditas por nós vividas.
Fez-me falta, esse tempo.Tempo que ainda há-de vir.Outubro.Nunca é tarde para nós.
Fez-me bem ouvir-te, contar-te, receber-te...sentir que estás tão perto afinal.A tua voz, que acalma.
Há quem consiga estar já ali, mas fazer-me sentir que está muito, muito longe.
Mas tu não.Tu existes sempre perto, como se a tua presença fosse quase como uma alma que me acompanha.
Quando desliguei o telefone, estava tão calma e tão feliz, e repetia para mim mesma, que bom que existes, que bom ter a tua amizade e poder dar-te a minha.Assim livre...nunca nos preocupando quando estaremos juntas, ás vezes passam meses, mas depois vêm assim 3 dias , inesperadamente, que compensam todo esse tempo...e nos reforçam a alegria e aquela paz, que vê e deposita cor em tudo.
O nosso adeus, é sempre tranquilo, sabemos que mais tarde ou mais cedo, iremos pelo mundo espalhar e receber magia!E vai ser assim, mesmo com 90 anos...não é?
Não há palavras perfeitas para escrever sentimentos.
Até porque não há sentimentos perfeitos.
A beleza do sentimento está precisamente nas suas imperfeições,nas suas rugas, nas suas feridas e cicatrizes...Naquilo que dói...E se faz poema.
Aguardo-te com saudade...e um sorriso =)

SEC - semana de encontro com...



SEC - Semana de encontro com...






Apenas hoje me sinto preparada para falar de uma experiência que tive estas férias...
Mais uma...sim.
Mas há aquelas em que nos é fácil dizer tudo o que sentimos, tudo o que ficou em nós...e há aquelas em que levamos dias, senão semanas e meses a perceber o que mudaram, o que deixaram.
Foi logo após ter chegado da Covilhã, estive apenas um dia em casa.
E amigos, da SEM (Semana Missionária) em Arganil, já me tinham falado da SEC, (Semana de encontro com...), e convidaram-me a aparecer para ajudar,mesmo que já não fosse a semana toda, iria aqueles dias.
Encontro com...???
Econtro, com as pessoas de um bairro de lata.
Não fui para muito longe, pelo contrário, fui para bem perto...Odivelas, mais especificamente Póvoa de Sto.Adrião!
Essa bela terra, que tive o prazer de descobrir, onde vivem rostos amigos, que não esqueço.
Essa terra que tem o seu encanto nas pessoas que a habitam...são elas que fazem daquele local especial e acolhedor.
Que melhor forma podia ter de terminar as minhas férias, o mês de Agosto, tão cheio de experiências marcantes.
Muitos pensam que enlouqueci, um bairro de lata, para acabar Agosto em Beleza??!!
SIM.
Um bairro de lata, onde existe um amontuado de "casas", construídas clandestinamente, onde os esgotos não fazem parte do saneamento, onde o cheiro é o do lixo amontuado nos caminhos,estreitos e sinuosos, onde as crianças de meses, brincam na rua com cães vadios, onde essas mesmas crianças olham umas pelas outras...
SIM.Foi para ali que escolhi ir, os últimos dias das minhas férias, para me encontrar COM...com quem viesse, com quem lá está, com quem é discriminado pela sociedade porque vive ali, porque é de outra raça, porque é pobre, com quem sabe acolher de forma única e dar do pouco que tem com alegria, como eu nunca vi.
É ao lado desses que eu quero estar.Cada vez mais.
E lá fui.Numa manhã solarenga, lá punha eu a mala ás costas e dizia á minha mãe, "até domingo!"
Apanhei o comboio anciosa, e depois o metro, parecia que ia para um acampamento, de mochila, esteira, saco cama, mas isso porque iria dormir no chão.Mas lá ia eu para mais uma pequena grande missão, dentro da cidade, já ali ao lado.Onde era preciso.Feliz, como se partisse para longe.É esse bichinho que se chama missão, que nos move.Seja longe ou perto.
Cheguei, depois de rever a Ir.Beta e o Luís, companheiros da SEM e deixar as coisas no centro paroquial onde dormimos, seguimos por fim para o bairro do Barruncho.
Caminhei uns minutos, á conversa com a Ir.Beta, matando saudades e contando as aventuras de verão...e dei comigo, numa rua, cheia de vivendas muito bonitas, ao longe só avistava prédios altos e pensei, que o bairro ainda ficaria longe.
Mas á medida que fui caminhando, comecei a descer por um caminho de terra batida, que me mostrava um imenso buraco, onde estava o bairro, e eram centenas as barracas.
Enchi o peito de ar e pensei: "É aqui que eu vou trabalhar!"
Não senti receio, pois estava com alguém que conhecia o bairro e quem vem por bem, normalmente não é mal recebido.
A primeira imagem, foi a da Ana, a minha companheira da SEM, estava com 1 criança ao colo e mais duas muito pequeninas agarradas ás calças, subia com esforço uma ladeira, tinha ido busc´-las a casa, era perto das 10h da manhã...
E esse era o trabalho de todas as manhãs, ir buscar as crianças, que se deitam tarde e acordam tarde em tempo de férias...
Assim, também eu mergulhei pelas ruas do bairro, sem conhecer, era subir e descer, um autêntico labirinto de caminhos estreitos e enlameados.
Fui com o grupo e assim fomos batendo ás portas...chamando pelos nomes, alguns abriam a porta ensonados e gritavam que se iam despachar, afinal não era todos os dias, que alguém lhes batia á porta para brincar e estar com eles, outros estavam a tomar o pequeno almoço, batatas com atum, o resto do jantar, pois o leite e o pão fresco é um luxo.
Fiquei sem saber o que pensar...crianças tão pequeninas a tomar conta de si, a comer o que têm, a lutar pela vida como sabem, como podem.
Como não podia eu, escolher estar ali?
A alegria daquelas crianças, quando as levávamos pela mão, a rebeldia também em fugir e lá tinhamos que voltar para trás...para as convencer a ir connosco, trabalho nem sempre fácil...e bem sucedido.
Juntávamo-nos na casa da D.Conceição, uma senhora que disponibilizou o pátio da sua casa, para que ali reunissemos, com alguma sombra, sentados no chão, em roda, começar o dia com uma oração, simples. Depois os mais pequenos iam para outra casa, enquanto os mais velhos, jogavam á bola, a sua grande paixão.Entre desenhos e actividades preparadas pelo grupo, os dias destas crianças, tomaram uma cor diferente, deixaram de ter o abandono de estar em casa, sem ter o que fazer, ou apenas a vaguear pelo bairro...pondo muitas vezes em perigo a sua vida, pelas mais diversas razões.Elas gostavam de estar connosco, mesmo na sua rebeldia e choros de zanga, tudo o que queriam era um colo, um abraço, uma palavra...
A manhã passou-se entre jogos e buscas pelos que fugiam da casa onde eu estava com os mais pequenos.Mas logo voltavam, mais sujos depois de alguma queda, mais esfolados...mas a sorrir e prontos para mais traquinices.Sem medo de nada.
Sedentos de atenção querem sempre ser os primeiros, os melhores, ter o lugar de destaque, talvez fruto de uma falha nos afectos...grande.Podia sentir.
Limitei-me a estar, a abrir os braços, a sorrir e a brincar muito...não tive grandes ambições de mudança ali, mas sim ir dando aos poucos...de uma vez só é impossivel.
Claro que o meu cabelo, foi alvo de 1001 perguntas, se eu era Africana, se tinha estado em África, ao que eu respondia com um sorriso, que não, mas que gostava muito de lá ir um dia, eles que também não conhecem, diziam que os pais, tinham nascido lá...são pois a 2a geração, aquela que é já Portuguesa, e deve por isso, ter tantos direitos como nós temos.
A manhã passou a correr, o sol pelas 13h, era insuportável e eu já me sentia desfalecer e ainda tinha acabado de chegar.Ao levar as crianças para casa, para o almoço, podia sentir o suor, na minha pele misturando-se com o pó branco dos caminhos...e imaginei como é viver ali, anos e anos.
Imaginei este grupo, maravilhoso que ali trabalhou a semana inteira...não é fácil.
Juntámo-nos para almoçar no centro, passei água fria pela cara e enchi-me de coragem, eu tinha que dar força a um grupo que encontrei cansado de uma semana assim, como tinha sido a minha manhã...e decidida, coloquei um sorriso e novas ideias, para a parte da tarde e para o dia da festa que se aproximava.
Ao almoço, já não havia espaço para o "não gosto disto" ou "não me aptece comer"...e agradecemos pelo que temos, com amor.A mesma alegria da SEM, entrou em mim, os cânticos, os rostos o espiríto que se vive numa mesa cheia de gente, que vive para dar e não apenas para ter.
Depois do almoço, reunimos para acertar as tarefas da tarde, teriamos que ensaiar com os mais velhos uma peça de teatro, a parábola do filho pródigo, para Sábado, onde estariam os pais e as pessoas do bairro a assistir.Empenhei-me com todas as minhas forças em planear.
Era hora de voltar ao bairro, com energia renovada, ia eu.
Arranquei sozinha, no meu passo lento e ia pensando em tudo o que uma manhã me tinha abanado...dei comigo a entrar no bairro, sozinha, sem medo, a falar com as pessoas que passavam por mim, e com que força faria eu isto, noutro tempo, noutro lugar?
Não sei, mas sei que ali o fiz e o fiz de todo o coração.Queria mesmo estar ali...
Uma criança ao ver-me vem a correr ao meu encontro, dá-me a mão e percebendo que o caminho era inclinado, e eu ia meio insegura, diz-me : Não te preocupes, que eu ajudo-te, ok?", e ali estava eu, com uma criança de 4 anos pela mão, que me ajudava a descer uma rua, como se isso fosse a coisa mais importante naquele momento...tal como era para mim estar com ela.
A tarde, não foi fácil, de novo ir buscá-los a casa, depois reunir, e tentar fazer algo, mesmo quando os mais velhos só querem jogar á bola, e não ouvem o que pedimos, mesmo que seja com jeitinho.O meu grupo, começou a querer desistir, e a querer fazer outra coisa que não fosse o teatro...mas não podiam desistir ali, depois de tanto trabalho.
O truque foi, começar a ensaiar com os que estavam e os outros por interesse aproximavam-se aos poucos e iam ficando...á espera de um papel, de uma função.Havia para todos.
Assim, eu fui escrevendo as falas, de cada um, e entregando-lhes em mão, para que as estudassem em casa, e rezava para que não as perdessem, pois foi exactamente o que aconteceu.
Fora isso, o ensaio lá se fez, depois de muitas tentativas, de muitas risadas...e desvaneios.Conseguimos ensaiar 2 vezes, uma vitória...
Nessa tarde a D.Conceição, não nos deixou ir embora sem lanchar.Nós eramos tantos, mas ela atarefada, ia pondo a mesa, cozinhando, aquecendo e lá entrámos todos, crianças, adultos, seriamos uns 20 á volta da mesa...tudo posto com cuidado, para nos receber, o cheiro era bom, cozinhavam cous cous em forma de bolo,quentinhos, para comer com manteiga, e beber com leite e chá.Soube-me pela vida, depois das energias gastas no ensaio.Primeiro as crianças e depois nós.Uma troca de culturas e costumes ali presente.E mais que isso, uma barreira ultrapassada, entre raças, estatutos sociais...o que fosse que nos separasse, ali já nada existia.
Antes de começarmos, a D.Teresa, uma senhora adorável lá do bairro, bem mais velha, começou a cantar, em jeito de oração, e todos parámos, eu arrepiei-me com a fé daquela mulher, que cantava do fundo da sua alma, feliz por nos ter ali.
Terminado o lanche, voltámos á base, o nosso centro, para trabalhar, para a festa e viver em comunidade.
O cansaço era visivél no rosto de todos...o jantar, preparado por uma senhora com todo o carinho, deu-nos forças, para uma noite longa.
Na igreja da póvoa, relaizou-se uma vigilia de oração, onde o silêncio, depois de um dia cheio, foi um encontro pessoal...foi o terminar perfeito.
O dia terminou com a partilha, na oração, e depois de ouvir todos, senti-me muito pequenina, pois o que cada um tinha vivido naquela semana, era tanto, comparado com um só dia, como o meu.E por isso partilhei, que nem que fosse por um só dia, já teria valido a pena estar ali, fazer o que fiz, sentir o que senti, ver o que vi...sujar-me, aleijar-me nos pés, cansar-me, porque nos acorda.Porque nos faz querer mudar o mundo.Agradeci, porque tanta gente, se dava assim...agradeci pelo grupo e por ter mais 2 dias, para viver esta experiência de braços e coração abertos.Nada fica igual, nunca mais.
Deitei-me, depois de acabarmos os embrulhos com doces para a festa...tomei um banho, e caí no saco cama, no chão, que me pareceu a melhor cama do mundo, naquele instante.
O dia amanheceu cedo, depois da oração e do pequeno almoço, sempre com a alegria de uma casa cheia de gente, a manhã foi de retiro, cada um, teria tempo para estar sozinho, ler um texto e refletir.Ao fim da manhã, seria a partilha, que mais uma vez foi intensa.
Depois do almoço, foi o grande momento de ir para o bairro e preparar a festa com as crianças e a comunidade.O material preparado no dia anterior, ia nas nossas mãos, como um tesouro, porque o preparámos com tanto empenho e carinho.
Ao chegar, as crianças correm para nós, com a sua melhor roupa, e de banho tomado, preparadas para a festa.Começamos a montar tudo, enquanto uma equipa organizava o terço pelas ruas do bairro, outra ia preparando o espaço da festa.Enquanto pendurava balões coloridos, no toldo, via e ouvia o grupo pelas ruas, ao qual se iam juntando mais pessoas, á medida que passavam.
As cores iam alegrando o que é cinzento e em menos de nada, o espaço parecia outro!Fizémos também uma exposição com os trabalhos das crianças...tapando as paredes com capulanas!De repente vi-me em África...assim num relance!
Aos poucos começaram a chegar e a querer entrar...a casa da D.Conceição era o centro de tudo nesse dia...e senti que aquela era também a minha casa, a nossa casa, pois ali entrava e pedia tudo o que precisasse, coisas para o teatro de ultima hora...na sua disponibilidade e na sua pobreza, parecia ter tudo.Mas se há coisa que tenho aprendido é que, quem tem menos, é quem dá mais...sempre!
O teatro começou, o silêncio ouvia-se...e mais ou menos bem, as frases lá sairam, do jeito que eles souberam...vestidos com os fatos que cuidadosamente cortámos com sacos e com o que havia...eu estava orgulhosa de todos, pois o que parecia impossivél de se fazer, aconteceu e correu bem.E a mensagem passou.
Depois foi a vez de lanchar...pusemos uma grande mesa, sumos e bolos, para todos...e uma medalha em forma de coração, que dizia, "Deus ama-te!", um embrulhinho com doces, que desapareceu em menos de nada...mas alegria e festa!E sobretudo, simplicidade.
O fim de uma semana árdua...mas gratificante, sentir que ali todos éramos de facto amigos...e que o importante apesar de todas as nossas diferenças, é que Deus nos ama, da mesma forma, com o mesmo amor.
Dali seguimos todos para a eucaristia, onde as crianças também participaram, cantando na acção de graças: " Belo, belo, Jesus é belo e Jesus faz belas as coisas da vida!!"onde também se agradeceu á comunidade, por todas as ofertas, e apoio.
A noite terminou com a partilha e como era a última noite, alguns de nós ficaram á conversa...em partilhas que marcam sempre.As poucas horas de sono, não afastaram a alegria de receber no Domingo, mais jovens que nos tinham também visitado na SEM, e alguns que participaram na SEC, do ano passado, vinham do Porto, mas não é de admirar, pois nesta SEC, estavam 2 raparigas dos Açores, da ilha treceira, vieram de tão longe...
Juntos celebrámos a eucaristia, onde as pessoas do bairro participaram e ali os últimos abraços e despedidas, um obrigado pelo acolhimento 5*****, que não esqueço.
Almoçámos todos juntos, uma festa sem fim...um rever de rostos solidários e uma certeza...de que é Bom ser missionário, é bom estar no mundo...fazer parte dele, mudando-o pela nossa passagem...criando laços.Sem preconceitos...
Pelo meio da tarde, o centro estava arrumado e limpo, as coisas arrumadas...eu fui adoptada pelo pessoal da póvoa, que só me deixou ir para casa pelas 00h, alegando que precisavam de ajuda em algumas tarefas...e foi em casa dos manos Ana, Luís e Rui,que nos reunimos,eu a Marta, o Cunha...ainda com aquele sentimento de comunidade, que ali sempre se sente.
Ainda nos despedimos, com uma surpresa, de 2 seminaristas, que partiam no dia seguinte para Itália, tiveram direito a uma serenata e tudo!
Chegámos a minha casa, e uma hora dentro do carro a rir a chorar e a partilhar o que de mais forte pode haver.
Obrigado, por terem sido o desfecho mais bonito que podia ter...destes dias.Para mim um descobrir sem fim,de pessoas bonitas, que valem a pena...e que marcam.
Mas sobretudo um descobrir de um caminho que cada vez mais tenho a certeza ser aquele que me conduz á plenitude.
Sei, que agora, qualquer dia posso entrar no bairro do Barruncho e não sentirei medo, logo encontrarei um rosto amigo...e muitos são os que ali não entram por desprezo...dois mundos tão distintos, separados por escassos 300 m...

Não vejo nada da mesma forma, tudo muda, depois de dias assim.Tudo o que tenho é demais, é um luxo...só posso agradecer, mas também partilhar.
Partilhar com vocês o que senti, ainda que as palavras se tornem monótonas e longas...mas não há imagens que falem pelo que senti...ás vezes é assim.


Encontro?
SIM.
Só posso dizer, SIM.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ainda Monsanto...
Há imagens que não posso deixar de partilhar, pelo que me fizeram respirar fundo...e olhar sem fim o horizonte, sentir orgulho deste Portugal profundo e mágico, que não pára de me surpreender!
Ao longe da estrada...o monte de pedras, confunde-se com a aldeia.




Esta imagem é talvez a mais bela de todos estes dias, a que mais me marcou, foi a primeira imagem que vi, ao fundo de uma rua,ao sair do carro, estavam sentados á conversa, ou paravam para olhar simplesmente o horizonte...lá ao fundo voava uma ave, que não pude identificar, mas que foi a cereja no topo do bolo!
Esta imagem tão comum, a quem vagueia pelas aldeias deste País, e encontra saudosos, velhos emigrantes, que longe deixaram a sua luta, para agora descansar na paz da sua terra natal.
É o meu desktop...por uns dias.Tem alma.

O casario...


Ah um céu azul, e um horizonte a perder de vista...que saudades!








Vamos subir ou não?huuuummm...pois, fica para a próxima...






A D.Grancinda, a quem o Jorge teimava em chamar D.Felizarda...lá felizarda ela era, pois tinha um amor á sua terra como eu nunca vi...dava gosto!Mas no fim de estarmos á conversa ainda nos disse: "pois vocês é fotografias, fotografias, mas comprar marafonas nada...!", LOL


Uma espécie de gruta...


UUUHH, MEDO!


Será que eram morcegos...?





Mais uma vendedora de marafonas, na porta da sua casa...estas pessoas vivem nas rochas!!





Descobrir recantos!


A madalena é muito forte, consegue com um pedrego destes á cabeça...e ainda sorri para a foto!


Ai Portugal...






O nosso País é lindo.

Lucky by Jason Mraz Ft. Colbie Caillat

Lucky - Jason Mraz Ft. Colbie Caillat

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Nasceu um Blog, uma alma musical...











Nasceu mais um blog, A ALMA MUSICAL, e eu ajudei ao parto, recomendo vivamente, ou não fosse o blog do meu melhor amigo...o amigo de sempre, de todas as horas, que não falha e retorna sempre ao abraço eterno e seguro.

Bem vindo á blogoesfera!




quarta-feira, 3 de setembro de 2008



Timor, espero por ti...
...e sei que tu já esperas por mim!




Aprender foi, o verbo que mais conjuguei dentro de mim,durante estas férias...
Olhando para trás, tanto que vivi e recebi.
Foram férias de entrega, também com algum descanso pelo meio.Sinto que não parei, fisicamente, mas o fiz imensas vezes interiormente, o que me ajudou a decidir tantas coisas.
Só posso estar grata...por todas as pessoas que entraram na minha vida de uma forma tão bonita, pelos abanões que levei e me acordaram...pelo que os olhos levaram ao coração e lá depositaram, com cuidado.
Já não será segredo para ninguém, que mais dia menos dia, o meu desejo é partir em missão.
É um desejo antigo, que me vi forçada a calar, por momentos menos bons, que já lá vão.Fazem parte de um passado, que me fez...e me envia, com mais amor e mais resistência á dor e ao sofrimento.No entanto nunca vimos tudo...e o que ainda há para ver...

Entregaram-me nas mãos, Timor.
E eu sem hesitar, disse SIM.






Podiam ter-me chamado, para qualquer canto do mundo, eu iria.Sei das minhas limitações, mas sei também que as maiores limitações do homem, estão na cabeça e na sua forma de pensar.
Esta alegria que me caracteriza, que me ajudou a lutar contra a morte, é tempo de a canalizar para quem mais precisa...
Estou decidida a deixar o mundo bem melhor do que o encontrei, nem que sejam apenas sorrisos.
Mas sei que isso não chega.








O local para mim não importa, contanto que vou estar ao lado dos que pouco ou nada possuem.
E eu, eu aqui tenho tudo.Tudo e mais alguma coisa.Tenho demais.
É tempo de aprender a viver com bem menos, abdicando de uma série de confortos e caprichos, que até aqui eram normais, mas que sempre me fizeram uma certa confusão.



Tenho para mim que ser missionário é proclamar com a vida e com a voz, que Deus nos ama. A linguagem dos gestos é universal e de fácil leitura.

A força de um coração é maior, do que a força de um corpo.E portanto não há barreiras, que não possamos transpor.E Deus só pede a cada um, aquilo que ele sabe que cada um é capaz de dar.




Entende-se assim que a minha ocupação fundamental durante os próximos 5 meses será o estudo da língua do povo com quem vou viver. O tetum.
O discurso das palavras tem que ser traduzido para ser significante.






.

Muitos desejam ser enviados para o Brasil ou para Moçambique, pois assim não têm que aprender a língua...mas falar Português.



Aprender a língua, contudo, não chega. É necessário entrar na história, cultura e costumes deste Povo, para poder passar-lhes Deus, Amor e o Envagelho.



Livros sobre a cultura são uma boa ajuda, mas não substituem as visitas às famílias e participação nos momentos mais importantes das suas vidas, quando somos convidados.



Mas a solidariedade e a amizade também se fazem de silêncios…e como aprendi isso, este ano.



Estudar a língua e descobrir a cultura são dois aspectos de um processo de aprendizagem mais vasto e que passa pela reciclagem do próprio viver.



Por estes dias fiquei a saber muita coisa que ainda não sabia, mas que me tranquiliza. Não poderei levar na mala o ritmo de vida que levo em Lisboa. Terei que inventar rotinas novas.Porque já me disseram que o povo Timorense vive com muita calma, e respeita sem fim, o ritmo de cada um.

A princípio talvez me vá sentir um pouco perdida, num ambiente estranho e sem pontos de referência, com lágrimas nos olhos e no coração, por isso todos passam...mas isso é sinal do amor, que deixámos nos que se cruzaram connosco e foi esse amor que nos fez ir e nos levou até ali.Foi esse amor que me trouxe aqui, ao ponto de ver claramente o caminho a seguir.

Começarei por acertar o relógio biológico pelo fuso horário do país: levantamo-nos com os galos e deitamo-nos com as galinhas, porque não há rede eléctrica e é o Sol que determina o ritmo da vida.






Para ter rede de telemóvel há que andar uma hora e meia, até ao cimo da montanha.

Das torneiras não sai um fio de água.

As estações do ano também andam trocadas: Em Timor é sempre verão…apenas na montanha há mais humidade.

Terei que ajustar o próprio conceito de tempo.Mas para quem como eu, aprendeu a viver com mais calma nestes últimos 4 anos...foi um treino, sem o saber.

Aprender a viver de novo é um processo que não será fácil, mas nunca estive tão certa do que quero neste momento, e de que bastará ser aquilo que sou, para que tudo corra bem.

Tudo tem o seu tempo.
O meu tempo é agora, de me dar, de me descobrir, de ir mais longe.





Mas através de tudo o que tenho vivido, e ao olhar para trás, revendo a minha caminhada, sei que Jesus está aqui comigo e me dá a coragem e os meios necessários para cumprir esta nova fase da minha vida missionária.
A luta, essa, tenho de ser eu a travá-la – e de cara alegre, como sempre tive! – porque esse é o jeito de Deus.
Deus tem-me manifestado o seu carinho e ternura através do afecto, encorajamento e preocupação de tanta gente, companheiros de caminho, de quedas e alegrias, muitos amigos.

É verdade que a minha vida levou uma grande reviravolta, nestes últimos 2 meses, uma reviravolta interior, enquanto pensava nesta decisão, mas não posso esconder, que desde logo ouvi o meu sim.
Agora, que o tempo começa a contar e vai voar, não tenho porquê esconder de ninguém.
Este verão pus-me á prova, fui ao limite, quis saber de mim...e encontrei respostas.
Algumas excluem relações com pessoas, costumes que tenho, mas se não for assim não partirei livre.

Sei, que a reviravolta será ainda maior...depois, lá, e quando regressar, mas não me ocupo disso, neste momento, quero preparar-me de alma e coração, pois esses serão os meus grandes aliados, perante umas pernas que caminham firmes, mas devagar!



E agradeço a Deus por me enviar como sua missionária para aquelas montanhas verdejantes no meio de gente tão simpática, acolhedora e linda, como me descreveram.Agradeço também as dificuldades que vou encontrar, pois nem tudo são rosas.

Este tempo parei para ouvir quem lá está, para me assustar, para me dar espaço a mim , de fraquejar e dizer que não sou capaz, mas não o senti, nem por um momento.
Humanos somos todos e mente aquele que disser, que partiu sem ansiedade e receio normal de quem vai ao desconhecido.Mas quem parte com fé...parte feliz!

Aquilo que precisava ouvir, disseram-mo com imensa ternura, e face ao Não que ouvi, há uns anos atrás, oiço agora um sim.



E eu digo um SIM ainda maior e mais seguro, por mim guardado há muito muito tempo, com amor.











E é com um sorriso rasgado e os olhos rasos de água...que eu digo:




Obrigado Pai, no dia em que partir, esse será o dia mais feliz da minha vida.



Monsanto


Segunda feira, foi dia de escolher um destino para visitar...a uma 1h20, ficava Monsanto, a aldeia mais antiga de Portugal, e mais Portuguesa!
Foi assim que depois de um acordar tardio, e de um almoço no Fundanês, onde celebrizámos o oh menino, oh menino...com o empregado, nos pusemos em marcha pela estrada fora!
Esta aldeia é linda...toda em granito, com construções únicas, cravadas na rocha...
No caminho para lá, fomos deixando a montanha para trás, para dar lugar a uma paisagem que mais parecia alentejo, seca, descampado, oliveiras...e ali tão perto da serra.









Ali as pessoas ainda se juntam para conversar...pelos cantos e jogar ás cartas...e a cozer marafonas, as bonecas tipicas de Monsanto, que simbolizam a fertilidade!








A vista é fantástica...







Explorando...rocha e mais rocha!



As casas são construidas debaixo, e dentro destes pedregos enormes...assustador, viver com este peso em cima,mas bonito aos olhos de quem passa de visita!




As ruas eram mesmo a subir...e como eramos menos, agora, não podemos ver toda a aldeia, e ir ao castelo...o ponto mais alto!
Ficámos á conversa com a D.Gracinda...que já queria que comprassemos uma casa lá e tudo!








Uma esplanada entre pedras...


Há sempre gente que se movimenta por ali, e se encanta com estes tesouros que Portugal esconde e encerra em si...


Ainda há fotos de Monsanto que não tenho...

Vale mesmo a pena!